Fundamentos da Técnica Psicanalítica

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Nesta segunda edição o autor analisa, de forma clara, a introdução aos problemas da técnica, da transferência e da contratransferência, da interpretação e de outros instrumentos, da natureza do processo analítico, das etapas da análise e das vicissitudes do processo analítico.

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Capítulo 1 - A Técnica Psicanalítica

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A Técnica Psicanalítica

DELIMITAÇÃO DO CONCEITO DE PSICOTERAPIA

A psicanálise é uma forma especial de psicoterapia, e a psicoterapia começa a ser científica na França do século

XIX, quando se desenvolvem duas grandes escolas sobre a sugestão, em Nancy, com Liébeault e Bernheim, e na

Salpêtrière, com Jean-Martin Charcot.

Pelo que acabo de dizer, e sem ânimo para resenhar sua história, situei o nascimento da psicoterapia a partir do hipnotismo do século XIX. Essa afirmação pode obviamente ser discutida, mas já veremos que tem também apoios importantes. Afirma-se com freqüência e com razão que a psicoterapia é uma arte velha e uma ciência nova; e é esta, a nova ciência da psicoterapia, que situo na segunda metade do século XIX. A arte da psicoterapia, porém, tem antecedentes ilustres e antiqüíssimos, desde

Hipócrates até o Renascimento. Vives (1492-1540),

Paracelso (1493-1541) e Agripa (1486-1535) iniciam uma grande renovação que culmina em Johann Weyer (15151588). Esses grandes pensadores, que promovem, no dizer de Zilboorg e Henry (1941), uma primeira revolução psiquiátrica, trazem uma explicação natural das causas da enfermidade mental, mas não um tratamento psíquico concreto. Frieda Fromm-Reichmann (1950) atribui a Paracelso a paternidade da psicoterapia, que se assenta ao mesmo tempo – diz ela – no sentido comum e na compreensão da natureza humana; contudo, se fosse assim, estaríamos frente a um fato separado do processo histórico; por isso, prefiro situar Paracelso entre os precursores, e não entre os criadores da psicoterapia científica. Com o mesmo raciocínio de Frieda Fromm-Reichmann, poderíamos atribuir a

 

Capítulo 2 - Indicações e Contra-Indicações Segundo o Diagnóstico e Outras Particularidades

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Indicações e Contra-Indicações Segundo o Diagnóstico e Outras Particularidades

As indicações terapêuticas da psicanálise são um tema que vale a pena discutir não somente por sua importância prática, mas porque, por pouco que seja estudado, revela um pano de fundo teórico de verdadeira complexidade.

AS OPINIÕES DE FREUD

As indicações e contra-indicações foram fixadas lucidamente por Freud na já mencionada conferência no Colégio Médico de Viena, em 12 de dezembro de 1904. Ali,

Freud começa por apresentar a psicoterapia como um procedimento médico-científico e depois delimita suas duas modalidades fundamentais, expressiva e repressiva, tomando o belo modelo de Leonardo das artes plásticas.

No curso de sua conferência, Freud insiste nas contra-indicações da psicanálise para reivindicar finalmente seu campo específico, as neuroses (o que hoje chamamos de neurose).

Nessa conferência, e também no trabalho que escreveu pouco antes por encargo de Löwenfeld, Freud afirmou, e é um pensamento muito original, que a indicação da terapia psicanalítica não deve ser feita apenas pela doença do sujeito, mas também por sua personalidade.

 

Capítulo 3 - Analisabilidade

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Analisabilidade

Vimos, no capítulo anterior, que a indicação da psicanálise, quando não há uma contradição específica e irrecusável, é sempre um processo complexo, em que se deve computar uma série de fatores. Nenhum deles é por si mesmo determinante embora alguns possam pesar mais que outros. Só depois de avaliar ponderadamente todos os elementos, surge como resultante a indicação.Todavia, logo veremos que as coisas são ainda mais complexas, porque os conceitos de analisabilidade e acessibilidade, que agora discutiremos, estão além das indicações.

CONCEITO

O Simpósio de Copenhague mostrou, como dissemos, uma tendência geral a estreitar as indicações do tratamento psicanalítico, e essa tentativa tomou sua forma mais definida no conceito de analisabilidade, introduzido por

Elizabeth R. Zetzel, um dos porta-vozes mais autorizados da psicologia do ego. Com esse trabalho, culmina uma longa investigação da autora sobre a transferência e a aliança terapêutica, que se inicia com o trabalho de 1956 (apresentado, um ano antes, no Congresso de Genebra) e desdobra-se em seus relatos aos três congressos pan-americanos de psicanálise, ocorridos no México (1964), em Buenos

 

Capítulo 4 - A Entrevista Psicanalítica: Estrutura e Objetivos

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A Entrevista Psicanalítica:

Estrutura e Objetivos

Creio que seguimos, até este momento, um curso natural no desenvolvimento de nossos temas: começamos por definir a psicanálise, depois nos ocupamos de suas indicações e agora nos cabe estudar o instrumento para estabelecê-las, a entrevista. Vamos seguir de perto o trabalho de Bleger (1971), claro e preciso, verdadeiro modelo de investigação.1

DELIMITAÇÃO DO CONCEITO

O termo entrevista é muito amplo: tudo o que seja uma “visão” entre duas (ou mais) pessoas pode ser chamado de entrevista.2 Parece, entretanto, que a denominação é reservada para algum encontro de tipo especial, não para contatos regulares. “Vista, concorrência e conferência de duas ou mais pessoas em lugar determinado, para tratar ou resolver um negócio”, diz o Diccionario de la lengua española de la Real Academia (1956). Essa vista, pois, tem por finalidade discutir ou esclarecer alguma tarefa concreta, entre pessoas determinadas que respeitam certas constantes de lugar e de tempo. Uma entrevista jornalística, por exemplo, consiste em que um repórter vá ver uma pessoa, digamos um político, para angariar suas opiniões a respeito de um tema da atualidade. Nesse sentido, é necessário delimitar a que entrevista nos referiremos neste item do livro.

 

Capítulo 5 - A Entrevista Psicanalítica: Desenvolvimento

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A Entrevista Psicanalítica:

Desenvolvimento

No capítulo anterior, dissemos que na entrevista configura-se um campo, porque ambos, entrevistado e entrevistador, participam, porque ambos são membros de uma mesma estrutura: o que é de um não pode ser entendido se prescindirmos do outro. O mesmo seria dizer que a entrevista é um grupo, em que os dois protagonistas estão inter-relacionados, dependem e influenciam-se de maneira recíproca.

O grupo da entrevista e o campo em que esse grupo insere-se só podem ser estudados a partir dos processos de comunicação que toda relação humana traz consigo; por comunicação entende-se aqui não apenas a interação verbal, em que se trocam e empregam palavras, mas também a comunicação não-verbal, que se faz a partir de gestos e sinais, assim como a comunicação paraverbal, que se canaliza através dos elementos fonológicos da linguagem, como o tom e o timbre da voz, sua intensidade, etc. Nós nos ocuparemos disso em breve, com os estilos de comunicação.

 

Capítulo 6 - O Contrato Psicanalítico

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O Contrato Psicanalítico

Assim como o tema das indicações e das contra-indicações é continuado naturalmente pelo da entrevista, há também continuidade entre a entrevista e o contrato. Situada entre as indicações e o contrato, a entrevista deve ser o instrumento que, por um lado, permita-nos fundamentar a indicação do tratamento e, por outro, conduzanos a formular o contrato. Uma das estratégias da entrevista será, então, preparar o futuro analisando para subscrever o metafórico contrato psicanalítico.

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Talvez a palavra “contrato”, que sempre empregamos, não seja a melhor, porque sugere algo jurídico, algo muito prescritivo. Talvez fosse melhor falar do convênio ou de acordo inicial; de qualquer modo, a palavra contrato tem força e é a que utilizamos correntemente.1 Entretanto, e pela razão indicada, quando chega o momento de formulálo, não se fala ao paciente de contrato; diz-se a ele que seria conveniente pôr-se de acordo sobre as bases ou as condições do tratamento. Um amigo meu, então discípulo em Mendoza, contou-me o que aconteceu com um de seus primeiros pacientes, a quem propôs “fazer o contrato”. O paciente, advogado com uma florida neurose obsessiva, veio à entrevista seguinte com um rascunho do contrato para ver se parecia bem ao médico. Portanto, a palavra deve ficar circunscrita ao jargão dos analistas, e não aos futuros pacientes. Digamos, de passagem, que meu jovem discípulo de então, hoje distinto analista, cometeu dois erros, e não apenas um. Empregou inadequadamente a palavra e, além disso, criou uma expectativa de ansiedade para a próxima entrevista. Se se aborda o tema do contrato, deve-se resolvê-lo de imediato, e não deixá-lo para a próxima vez. Frente a essa espera angustiada, um advogado obsessivo pode responder como fez aquele homem.

 

Capítulo 7 - História e Conceito da Transferência

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História e Conceito da Transferência

A teoria da transferência é um das maiores contribuições de Freud para a ciência e é também o pilar do tratamento psicanalítico. Quando se repassam os trabalhos desde que surge o conceito até seu total desenvolvimento, chama a atenção o breve lapso dessa investigação:

é como se a teoria da transferência tivesse nascido, inteira e de um só golpe, na mente de Freud, embora sempre se tenha dito o contrário, que ele foi elaborando-a pouco a pouco. Talvez essas duas afirmações não se contradigam, no entanto, se a primeira se refere ao central da teoria e a segunda aos detalhes.

O CONTEXTO DA DESCOBERTA

Uma releitura do trabalho de Szasz, “The concept of transference”, fez com que se recolocasse para mim esse pequeno dilema, interessante, sem dúvida, do ponto de vista da história das idéias psicanalíticas. Como todos sabem, por Jones (1955) e pela “Introdução” de Strachey ao grande livro de Breuer e Freud (AE, v.2, p. 3-22), o tratamento de Anna O. ocorreu entre 1880 e 1882 e terminou com um intenso amor de transferência e contratransferência (e até de paratransfêrencia, poderíamos dizer, pelo ciúme da esposa de Breuer). Os três protagonistas desse pequeno drama sentimental registraram-no como um episódio humano igual a qualquer outro. Quando Breuer referiu a Freud o tratamento de Anna O., no final de 1882

 

Capítulo 8 - Dinâmica da Transferência

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Dinâmica da Transferência

Neste capítulo, nós nos ocuparemos de “Sobre a dinâmica da transferência”, que Freud escreveu em 1912 e incluiu em seus trabalhos técnicos. É, na realidade, como assinala Strachey (AE, v.12, p. 95), um trabalho essencialmente teórico e de alto nível teórico. Freud propõe-se a resolver dois problemas: a origem e a função da transferência no tratamento psicanalítico. É necessário destacar que, nesse estudo, a transferência é, para Freud, um fenômeno essencialmente erótico.

NATUREZA E ORIGEM DA

TRANSFERÊNCIA

A origem da transferência deve ser buscada em certos modelos, estereótipos ou clichês que todos temos e que surgem como resultante da disposição inata e das experiências dos primeiros anos. Esses modelos de comportamento erótico repetem-se constantemente no curso da vida, embora possam mudar frente a novas experiências. Pois bem, apenas uma porção dos impulsos que alimentam esses estereótipos atinge um desenvolvimento psíquico completo: é a parte consciente que se dirige para a realidade e está à disposição da pessoa. Outros impulsos, detidos no curso do desenvolvimento, afastados da consciência e da realidade, impedidos de toda expansão fora da fantasia, permaneceram no inconsciente.

 

Capítulo 9 - Transferência e Repetição

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Transferência e Repetição

RESUMO DOS DOIS

CAPÍTULOS ANTERIORES

Vale a pena reiterar que, quando escreveu o epílogo

à análise de “Dora”, seguramente em janeiro de 1901,

Freud tinha uma idéia concreta da natureza da transferência e de sua importância, embora depois o desenvolvimento de sua reflexão chegue às vezes a pontos obscuros e/ou discutíveis. A transferência deve ser continuamente analisada, diz ele, e acrescenta que apenas quando a transferência foi resolvida o paciente adquire verdadeira convicção das construções que se fizeram para ele. Isso é muito claro, e hoje todos o subscrevem plenamente. Creio, por minha vez, que o paciente não somente adquire convicção, já que se analisa a transferência, mas que, além disso, tem todo o direito de que seja assim, porque só a transferência demonstra-lhe que realmente repete as pautas de seu passado: todo o resto não passa de uma mera compreensão intelectual que não pode chegar a convencer ninguém.

 

Capítulo 10 - A Dialética da Transferência Segundo Lacan

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A Dialética da

Transferência Segundo Lacan

RESUMO

Para fazer uma síntese do que foi estudado até aqui, poderia dizer que, quando é considerado no nível teórico, o tema da transferência estabelece duas interrogações fundamentais, em torno das quais giram todos os estudos: 1) a espontaneidade do fenômeno transferencial ou, como também se diz, em que grau é determinado pela situação analítica e 2) a natureza da repetição transferencial. Sem prejuízo de que talvez haja outros, estes são, sem dúvida, dois pontos essenciais. Miller (1979) afirma que a transferência fica enlaçada a três temas fundamentais: a repetição, a resistência e a sugestão, enfoque que coincide com o que recém foi expresso.

Falamos suficientemente da espontaneidade do fenômeno transferencial e assinalamos que Freud tem aqui uma posição muito clara: não se cansa de insistir que a transferência não depende da análise, que a análise a detecta, mas não a cria, etc. Essa opinião é registrada desde o epílogo de “Dora” até o Esquema da psicanálise.

 

Capítulo 11 - A Teoria do Sujeito Suposto Saber

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A Teoria do Sujeito Suposto Saber

O pensamento de Lacan é complexo e tem vitalidade. Não é, pois, de espantar que mude, e ainda mais em um tema como o da transferência, que o ocupou em muitas ocasiões ao longo de sua extensa obra.

Até aqui, a transferência havia sido situada na tópica do imaginário, na qual analista e paciente espelham-se um no outro e ficam prisioneiros de sua fascinação narcísica.

A partir dessa perspectiva, o processo psicanalítico só se constituirá no momento em que o analista transformar essa relação dual em simbólica, para o que é necessário que rompa a relação diádica e ocupe um lugar terceiro, o lugar do código, o lugar do grande Outro.

O SUJEITO SUPOSTO SABER

Em Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse

(1964), o livro XI de seus seminários, Lacan oferecerá uma nova hipótese, que atribui à transferência um lugar na ordem simbólica. Essa proposta, conhecida como a teoria do sujeito suposto saber (S.S.S.), tem como ponto de partida uma reflexão sobre o conhecimento e a ordem simbólica.

 

Capítulo 12 - As Formas de Transferência

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As Formas de Transferência*

Neurose de transferência é um termo bifronte, introduzido por Freud em dois trabalhos perduráveis de 1914.

Em “Recordar, repetir e reelaborar”, define-o como um conceito técnico, assinalando uma modalidade especial do desenvolvimento do tratamento psicanalítico, segundo a qual a doença originária transforma-se em uma nova que se canaliza para o terapeuta e para a terapia. Em “Introdução do narcisismo”, ao contrário, neurose de transferência contrapõe-se a neurose narcísica e é, portanto, um conceito psicopatológico (ou nosográfico).

ALGUMAS PRECISÕES SOBRE

A NEUROSE DE TRANSFERÊNCIA

As duas valências do termo que acabo de destacar em geral não se discriminam, entre outras razões porque o próprio Freud sempre pensou que as neuroses narcísicas careciam de capacidade de transferência e ficavam por isso fora do alcance de seu método.

Se quisermos ser precisos, no entanto, o que Freud afirma em “Recordar, repetir e reelaborar” (1914g) é que, com o começo do tratamento, a doença sofre uma virada notável que a faz cristalizar-se no tratamento. Diz Freud em seu belo ensaio: “E damo-nos conta de que a condição de doente do analisando não pode cessar com o começo de sua análise e que não devemos tratar sua doença como um episódio histórico, mas como um poder atual. Essa condição patológica vai entrando, peça por peça, dentro do horizonte e do campo de ação do tratamento e, enquanto o doente o vivencia como algo real-objetivo e atual, nós temos de realizar o trabalho terapêutico, que, em boa parte, consiste na recondução ao passado” (AE, v.12, p. 153).

 

Capítulo 13 - Psicose de Transferência

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Psicose de Transferência

No capítulo anterior, discutimos o conceito de neurose de transferência e sustentamos que é melhor reserválo para os fenômenos de natureza estritamente neurótica que aparecem no tratamento psicanalítico, e não para todos os sintomas que, de uma maneira ou de outra, adquirem uma nova expressão na terapia. Essa proposta tende a diferenciar a técnica da psicopatologia, com o que, a meu ver, evita-se mais de um equívoco.

Cabe-nos agora estudar a psicose de transferência, isto

é, como se reconvertem os sintomas psicóticos durante o tratamento psicanalítico para obter ali seu modo de expressão.

ALGUMAS REFERÊNCIAS HISTÓRICAS

Quando estudamos a forma como foi desenvolvendose o conceito de transferência, assinalamos o empenho de

Abraham (1908a) para estabelecer as diferenças psicossexuais entre a histeria e a demência precoce. A libido permanece ligada aos objetos na histeria, ao passo que se torna autoerótica na demência precoce. Incapaz de “transferência”, essa libido condiciona e explica a inacessibilidade do doente, sua radical separação do mundo. Seguindo o mesmo esquema, um ano depois Ferenczi propôs uma divisão tripartite dos pacientes, que vai desde o demente precoce, que retira sua libido do mundo externo (de objetos), passa pelo paranóico, que projeta a libido no objeto, e chega finalmente ao neurótico, que introjeta o mundo de objetos. Esses trabalhos serão reformulados por Freud quando, em 1914, introduz o conceito de narcisismo e propõe as duas categorias taxonômicas de neuroses de transferência e neuroses narcisistas.

 

Capítulo 14 - Perversão de Transferência

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Perversão de Transferência*

A tese deste capítulo é que a perversão possui individualidade clínica e configura um tipo especial de transferência.

CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS

Não foi simples captar a unidade psicopatológica das perversões e assinalar suas características definidoras. O estudo fenomenológico não basta, já que uma conduta não pode ser definida em si como perversa, sem contar que classificar as perversões por sua forma é como classificar os delírios por seu conteúdo. Era necessário chegar a compreender a perversão a partir de suas próprias pautas, e isso só começou a ser feito nos últimos anos.

A polaridade neurose-psicose é tão clara e categórica, que os outros quadros psicopatológicos tendem a cair finalmente em sua órbita. E as vigorosas pinceladas com que Freud traçou a linha divisória em seus dois ensaios de

1924 reforçaram, sem se propor a isso, esse dualismo fundamental.

A primeira tentativa de compreender a perversão partiu da neurose, com o célebre aforismo freudiano de que a neurose é o negativo da perversão, ainda vigente de certo modo, como diz com razão Gillespie (1964).

 

Capítulo 15 - Transferência Precoce: Fase Pré-edípica ou Édipo Precoce

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Transferência Precoce:

Fase Pré-edípica ou Édipo Precoce

RECAPITULAÇÃO

Nos capítulos anteriores, revisamos o conceito de neurose de transferência, procurando dar-lhe um sentido mais específico ao compará-lo e contrastá-lo com outras formas psicopatológicas. Como o leitor certamente lembrará, há autores que preferem falar de neurose de transferência e formas especiais de transferência, como, por exemplo, Sandler e colaboradores (1973). Para eles, não existe propriamente uma psicose de transferência, mas uma neurose de transferência em que a psicose põe um selo especial. Nós tomamos uma posição oposta e afirmamos que o fenômeno transferencial, na psicose, está baseado em sua psicopatologia especial e autóctone. Se quisermos entender a transferência no psicótico e o próprio psicótico, teremos de descobrir a forma específica de transferência que lhe corresponde.

Esse conceito tarda em se impor; porém, uma vez compreendido, damo-nos conta de que não poderia ser de outra maneira. O que se pode esperar de um adicto, senão que procure manter, com o analista, o vínculo próprio de sua doença, tomando-o por uma droga?

 

Capítulo 16 - Transferência Precoce: Desenvolvimento Emocional Primitivo

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Transferência Precoce:

Desenvolvimento Emocional Primitivo

INTRODUÇÃO

Como vimos no capítulo anterior, o termo transferência precoce abrange os aspectos mais arcaicos, mais remotos do vínculo transferencial. É um tema complexo e controvertido, porque não há, em absoluto, acordo entre os investigadores do desenvolvimento precoce. Além disso, seja qual for esse desenvolvimento, ainda se deve verificar depois se é suscetível de ser captado e resolvido na análise.

Seguimos o itinerário de duas grandes investigações, iniciadas nos últimos anos da década de 1920 por Melanie

Klein e Ruth Mack Brunswick. Não creio ser parcial se afirmo que a obra de Klein é mais transcendente que a de

Mack Brunswick, que, pela enfermidade e pela morte, não chegou a se desenvolver plenamente.

A rota aberta por Melanie Klein, com seus trabalhos das décadas de 1920 e de 1930, graças ao instrumento que ela mesma se proporcionou, a técnica do jogo, culmina na metade do século XX com “The origins of transference” (1952a). Embora tenha sido combatida vivamente, a presença do tema na psicanálise atual parece darlhe a razão. Não se deve esquecer que Anna Freud, a outra grande figura da psicanálise de crianças, pensava que não era possível, de modo algum, ter acesso a essa

 

Capítulo 17 - Sobre a Espontaneidade do Fenômeno Transferencial

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Sobre a Espontaneidade do

Fenômeno Transferencial

Desejo resenhar, a seguir, duas breves experiências que, em meu entender, apóiam a idéia de que a transferência aparece espontaneamente e desde o começo. São dois casos muito particulares, em parte semelhantes e em parte opostos, em que a transferência impõe-se de imediato, sem que nem o setting, nem minhas “teorias” pareçam ter pesado. Por se tratar de dois colegas, terei de omitir certos dados, que também teriam apoiado a tese que sustento.

MATERIAL CLÍNICO Nº 1

Há vários anos, no final de um mês de outubro, consultou-me por telefone uma colega que se encontrava muito deprimida depois da morte de sua única irmã. (Um irmão dois anos mais moço havia morrido ao nascer). Queria realizar algumas entrevistas antes das férias de verão e considerava que eu era o mais indicado. Aceitei vê-la, apesar de minhas escassas disponibilidades de tempo, certo de que não passaria de uma psicoterapia breve, de tempo limitado pelas férias três meses depois, à maneira de uma crisis intervention.

 

Capítulo 18 - A Aliança Terapêutica: de Wiesbaden a Genebra

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A Aliança Terapêutica: de Wiesbaden a Genebra

Nos capítulos anteriores, estudamos a transferência e não vacilamos em destacá-la como o fator mais importante da terapia psicanalítica. Afirmamos também que ela só pode ser entendida se for comparada com algo que não

é transferência, como sustentou Anna Freud no Simpósio de Arden House de 1954. Desse modo, é óbvio que a transferência ocupa apenas uma parte do universo analítico (e o mesmo se pode dizer de qualquer experiência humana).

Como já disse em um capítulo anterior, nesse ponto concordo com Fenichel (1945a) e Greenson (1967).

Quando sustento que nem tudo o que aparece no processo analítico é transferência, quero dizer que sempre há algo mais, não que falte a transferência, o que é bem diferente: a transferência está em tudo, mas nem tudo o que existe é transferência. Ao lado da transferência, encontrase sempre algo que não é transferência, e a esse algo vamos chamar, provisoriamente, de aliança terapêutica.1 Digo provisoriamente porque, como veremos em seguida, o conceito de aliança terapêutica é mais complexo do que parece.

 

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