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A Infância Através do Espelho

Autor(es): Celso Gutfreind
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Este livro reflete sobre o papel da literatura e da psicanálise infantil e sua inter-relação. Assim, nas três seções que compõem esta obra, a psicanálise, que busca compreender mais profundamente o ser humano, e que sem literatura não poderia ser tão bem escrita, é contada, poetizada e narrada para que continuemos vivendo e imaginando.

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28 capítulos

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Afinal, para que literatura?

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Tão pouco nós sabemos desta vida

Que a dúvida da dúvida duvida. (Keats; Byron, 2009)**

Queria ler o capítulo em voz alta. Eu o escrevi. Em homenagem à literatura. Que, afinal, pôde ser oral, mas hoje permanece mais na escrita. Na escrita digitada. Eu digitei o manuscrito, tenho tudo em meu disquete.

Quer dizer, pendrive. Quer dizer, smartphone, iPad. iPad dois, três, quatro, cinco. Seis, talvez, quando estiver pronta a edição. Essas coisas vão mudando rápido.

A literatura fica. Guarda algo do tempo, da lentidão, da permanência.

Detém a riqueza da representação: o traço. Não seria esse o seu maior por quê? Durar no confronto com a vida breve, cada vez mais veloz, ritmada pelos segundos, ditada também pela morte (Andrade, 1980). A neurose vem também do que não pôde ser guardado no calor da hora. E tenta ainda, desesperadamente, guardar. Por isso, é fria, guarda torto.

Quando era adolescente, eu tive alguns momentos normais. Por exemplo, eu não sabia o que fazer. Então, fazia muita bobagem do tipo fumar

 

Capítulo 1 - Carta a Emily Dickinson - Alegria e triteza da poesia em ação

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O monumento psicanalítico tem de ser atravessado não contornado, como as vias admiráveis de uma grande cidade, vias através das quais se pode brincar, sonhar etc.: é uma ficção. (Roland Barthes, 2010)

Emily Dickinson, quem disse que a morte é motivo para não falar da vida?

Falo com os avós, a irmã, os cachorros.

Todos em sono profundo como no poema de teu colega Manuel Bandeira.

A voz dos mortos, Emily, tem momentos de alegria depois da tristeza.

Tem ritmo vivo de transmissão, depois do luto que a poesia oferece. A psicanálise também oferece.

Agora, falo contigo.

Os vivos podem ser tristes, mas os mortos, quando falam, duram o tempo vasto do sonho. Ou devaneio. Eles flertam com a eternidade. E

* Escrito a partir de um encontro, na livraria Palavraria, em torno da obra de Emily Dickinson, com os escritores Ivo Bender (tradutor de Dickinson) e Ricardo Silvestrin, coordenador do evento.

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A INFÂNCIA ATRAVÉS DO ESPELHO

ficam. A morte dorme como na suavidade da tua poesia. Isto é uma alegria real, Emily, não a que pouco presenciaste diretamente na vida.

 

Capítulo 2 - Peter Pan - Uma viagem em torno da Terra da psicanálise

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Sim, eu entendo. Sem transformação,

O homem é um lobo sempre que há ocasião. (Keats; Byron, 2009)**

Há quem defenda a arte, a literatura em especial, como uma profecia.

Seriam páginas ciganas, lendo destinos nos olhos que leem.

Vinte mil léguas submarinas anteciparam a invenção do submarino.

1984, um mundo mais voyeurista e menos humano.

Até pode ser exagero dizer que Édipo Rei profetizou a psicanálise, e

Sófocles previu Freud, mas se Freud não visse o que Sófocles vira, a psicanálise seria menos olhada.

A literatura tem algo de tempos fusionados como no inconsciente: presente, passado e futuro na mesma dimensão. Ainda ontem, Shakespeare e Hamlet previram a ambivalência de hoje.

Vê-se depois que toda grande obra prevê. Talvez porque esteja próxima do sonho, que está perto do inconsciente, que fala de um futuro como se fosse passado.

* Reescrito a partir de um artigo publicado originalmente na Revista Latinoamericana de

Psicanálise- Calibán, v, 11, n. 1, 2013.

 

Capítulo 3 - Uma hipótese e muita arte a propósito de João e Maria

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Que a vida é morte eu chego a acreditar.

Mais do que a vida um afazer de ar. (Keats; Byron, 2009)**

Os irmãos Grimm escreveram João e Maria muito antes de ontem. Hoje, para as crianças, foi sem segundas intenções. Elas ouvem – ou leem – e vibram de medo, alívio, esperança. Ou com qualquer outro sentimento ainda não catalogado; afinal, toda criança está repleta de transmissões, mas também inaugura um novo mundo a que chega ávida para escrever e ler. Simplesmente, sem rodeios. Os contos sabem disso desde a noite dos tempos.

Diante de história tão representativa do seu mundo interno, as crianças ficam tristes com o abandono na floresta. Ou morrem de medo da bruxa.

Ou vivem felizes da vida com o reencontro de filhos e pai depois que a madrasta morre no final feliz. Ou expressam qualquer outro sentimento, presente na vida inédita de uma pessoa. Cada criança é outra pessoa, sentindo o que é só dela. Esta obviedade, infelizmente, ainda é pouco respeitada pelos adultos. A literatura e a psicanálise, se autênticas, tentam restabelecer este respeito.

 

Capítulo 4 - O apanhador no campo da Adolescência

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Eu sou a carne louca que freme ante a adolescência impúbere e explode sobre a imagem criada.

(Moraes, 2009a)

Lembro-me de duas vezes em que O apanhador no campo de centeio, de

J.D. Salinger (1945), entrou na minha vida. Um livro entrar na vida significa confundir-se com ela. Ou, como já nos disse o poeta Walt Whitman

(1983), tocar a vida quem o estiver tocando.

Toco a vida sempre que leio O apanhador ou evoco a adolescência.

E começarei pela segunda vez, porque pode ser exemplificada por trechos do próprio livro. Quero trazer muitas passagens para que a obra, como um adolescente que vai bem (apesar das aparências), possa falar por si.

A primeira vez foi pesada, na adolescência mesmo. Eu já tinha sido mordido pelo bicho da literatura e ostentava lesões estéticas por toda a pele. Pior, por dentro. Para tratá-las, seguia à risca as prescrições do escritor Antônio Augusto Mariante Furtado, meu primeiro terapeuta.

Ele não hesitava em prescrever livros. Foi quando me recomendou

 

Capítulo 5 - Precisamos falar dos fantasmas

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[...] na prática era doloroso demais pensar que meus pais, sim, haviam me desejado, mas ao mesmo tempo haviam querido uma criança que em muitos aspectos era certamente diferente do que haviam desejado, uma criança que teria de mudar. (Borgogno, 2009)

Precisamos falar sobre o Kevin, filme dirigido por Lynne Ramsay, é uma adaptação do best-seller homônimo, de Lionel Shriver. Ambos são impactantes. Já não precisamos retomar a velha ladainha do que é melhor, livro ou filme. Só três palavras: se o livro teve mais tempo para contar a história, o filme se virou muito bem com o que tinha. A montagem e a estrutura são um de seus méritos. Há outros, como os atores bem dirigidos.

Tilda Swinton (Eva) e os Kevin criança (Rock Duer) e adolescente

(Ezra Miller) dão um show à parte. Ah, na nossa imaginação tudo é mais forte, blábláblá, blábláblá, mas quero ver alguém imaginar um olhar tão penetrante quanto o de Kevin criança, na imaginação da tela. Ele arrebata

*

Reescrito a partir de um artigo publicado originalmente no Suplemento Cultura, do jornal

 

Capítulo 6 - Livro impresso ou digital: O bem e o Mal?

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Apesar disso, estou muito satisfeito com a minha insatisfação comigo mesmo. (Lessing, 1894)

Como pensar as relações entre a criança e o livro digital? São boas?

Ruins? Mais ou menos?

Para responder, pode-se buscar o que aprendemos nos livros impressos, mas eles ainda não abordaram um assunto tão novo. Pelo menos, não diretamente.

É preciso esperar e, durante, carece do que Bion (2006) escreveu em livro de papel no século XX:

Várias coisas se encaixam em minha mente, e de repente me ocorreu que qualidade contribuía para formar um homem realizado, especialmente em literatura, e que Shakespeare possuía tão desmesuradamente – quero dizer, a capacidade negativa, isto é, quando um homem é capaz de manter-se em incertezas, mistérios, dúvidas [...] (Keats, 2010)

O texto não é do psicanalista Bion, mas do poeta inglês John Keats, que o colocou em papel no século XIX. Tratava-se de uma carta com selo e

*

Reescrito a partir de um artigo publicado originalmente na revista Vox.

 

Capítulo 7 - Três ou cinco homens e o amor de uma mulher

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O que uma teoria tem a ver com uma história?

Para Freud, o amor é o movimento de um desejo. Esboçou a teoria.

Para Lacan, a apropriação de um desejo. Lapidou a teoria de Freud.

Para Chico Buarque, “[...] para se viver do amor, há que esquecer o amor [...]”. Ele cantou a história para espantar os males. (Buarque, 1977).

Mas o que o amor e uma história (canção de amor) têm a ver com a psicanálise?

A pergunta é pesada como mover um carro. Sentimentos voam, pesam mais ainda e responder demanda um quarto homem: para Quintana, todos os poemas – canções, histórias – são de amor. E vamos logo à mulher: para Doris Lessing, tudo é história (linguagem).

Para Chico Buarque, também. E para Lacan. Todos acabam se encontrando nos meandros da expressão. Lapidando Freud (que veio antes, depois faremos o flashback), encontramos a ideia de que o amor – de resto, tudo – consiste em apropriação. Do próprio desejo. Parece fácil, mas não é. Dura uma vida essa luta. Uma análise inteira consistiria em devolver o desejo a seu próprio dono.

 

Capítulo 8 - Leonardo Da Vinci: Entre a arte e a psicanálise

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Não sou um ERUDITO, não estou entre os 700 sábios da

Alemanha. Estou com o povaréu na soleira da sabedoria daqueles, e quando alguma verdade escapa por debaixo, e essa verdade vem até a mim, então andou o bastante: escrevo-a com letras bonitas num papel e a entrego ao tipógrafo; ele a compõe com chumbo e a entrega ao impressor; este a imprime e ela passa a pertencer ao mundo inteiro. (Heine, 2011)

Escolhemos para o livro um trabalho freudiano que também reúne arte e psicanálise. Ou a condição do artista. O texto é Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância.

A ideia é destacar trechos e deter-se em um de seus assuntos principais, o narcisismo. O relato é precursor na apresentação do termo. Interessa-nos ampliá-lo a partir do próprio conceito e de seus desdobramentos na clínica psicanalítica contemporânea.

O primeiro refere-se à importância atual do narcisismo quando se aborda a psicanálise do bebê a partir de uma visão inter ou transgeracional. As aproximações foram sugeridas pelo próprio Freud no trabalho de 1914 (Freud, 2004). O segundo aspecto consiste na reflexão sobre a criatividade, objetivo já presente em Freud.

 

Capítulo 9 - Poesia e psicanálise, este arsenal

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Conheço a poesia da Caroline Milman (2012) há muitos anos. Tive o privilégio de acompanhar sua trajetória e ler os seus inéditos. Sempre os recebi, com muita alegria, desde que começaram a vir. Era dupla a satisfação: o ato em si do recebimento, sob a sombra da confiança, mas também o sol da leitura com muito prazer em torno da qualidade dos textos.

Acrescentemos outro item para compor um tripé, palavra com frequência utilizada pelos psicanalistas, que Caroline e eu também somos: inconformada com os resultados, ciente de que a perfeição em poesia também

é utópica, Caroline jamais cansou de fuçar no seu artesanato em busca de uma superação, que permanece a cada nova leva e resultado. O narcisismo, no caso, não freou o desenvolvimento.

O parágrafo anterior conta uma história razoavelmente longa, mas nada original. Os poetas no Brasil costumam adiar a sua primeira edição e mesmo as seguintes. Vide os maiores, Drummond, Quintana, Bandeira.

E vão produzindo (e editando) outros materiais, em geral a prosa, talvez menos difícil, que a Caroline também faz através de trabalhos científicos com poesia. É muito complicado editar poesia pura.

 

Capítulo 10 - Para ler e ouvir cem anos depois

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Quando um autor escreve muito e muito bem, ficam alguns carros-chefes do seu trabalho. São os textos mais marcantes de uma vasta obra. Freud tem os seus; um deles completou cem anos em 2013 e se chama Totem e tabu. Na época, Freud publicou bastante e lançou outro artigo, longe de ser carro-chefe. Chama-se A ocorrência, em sonhos, de material oriundo do conto de fadas. Não chega a seis páginas, não fez muito barulho. Mas

é este centenário que desejei comemorar.

Freud destaca a importância dos contos na vida mental “de nossos filhos”. Há cem anos, quase oitenta antes do clássico de Bettelheim (1976) sobre o tema. Para Freud, os contos são tão importantes que chegam a ocupar o espaço de lembranças da infância. Ou seja, para chegarmos a elas, precisamos passar por eles.

Freud também demonstra a proximidade entre conto e sonho e o quanto o primeiro costuma invadir o segundo. Ele dá dois exemplos. No primeiro, descreve o sonho de uma paciente. Ela sonha com a visita de um homúnculo cuja fonte inspiradora seria um personagem dos Grimm. A interpretação (bem freudiana) teve um conteúdo sexual. O quarto era a vagina, o homúnculo era o pênis. Não faltou nem o preservativo (a indumentária cinzenta do visitante), mas o conteúdo impressiona de tão convincente; afinal, na realidade, a mulher estava preocupada com a concepção de seu segundo filho, depois de ter transado realmente com o marido.

 

Capítulo 11 - A química da sexualidade

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Todo escritor dirá então: louco não posso, são não me digno, neurótico sou. (Barthes, 2010)

Toda ciência que vai às ganhas, como a arte verdadeira, é pretensiosa.

Talvez porque enfrentem o nada. E criem.

O máximo desta pretensão científica foi abordar subjetivamente a sexualidade. E dizer que somos governados por forças ocultas. Como um político de segunda categoria, resvalou num ocultismo charlatão.

Todavia, o mito acaba de cair após a publicação de um artigo revolucionário na edição recente da prestigiada revista Science Today. Seus autores, membros de uma equipe sueca, dissecaram a anatomia da sexualidade de forma mais convincente do que os relatórios anteriores, Hide, Master

Johnson ou qualquer outra teoria subjetiva do gênero. Que agora tem uma química, precisa, exata, evidente.

É a prática. Era a crônica da morte anunciada da ignorância. O avanço tecnológico já vinha trazendo imagens em tempo real e aproximava-se

* Reescrito a partir de uma palestra promovida pela Sociedade Brasileira de Psicanálise, de

 

Capítulo 12 - Quatro amigos e uma composição

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Palabra por palabra tuve que aprender las imágenes del último outro lado. (Pizarnik, 1990)**

Agora eu vou contar a minha vida, mas não se assustem, porque não vai dar um livro grosso cheio de letra pequeninha e sem gravuras, desses que só de ver a gente começa a bocejar até adormecer. Deve dar uma composição curtinha e com desenho, dessas que em cinco minutos a gente lê na aula, depois fica lembrando e querendo ouvir outra vez e para sempre.

Como pode ser bonito lembrar! Sempre adorei tornar as coisas mais belas do que são. Mas sem mentir, porque sempre adorei a verdade mais do que tudo. Na verdade, eu sou mais inteligente do que bonito. Eu sou tão inteligente que chego a ficar bonito.

Às vezes, penso – eu sempre pensei muito – que uma vida pode ser resumida em um nome, uns amigos, uns problemas e muitas alegrias. A composição é o resumo de uma vida.

* Reescrito a partir de uma Aula Inaugural, ministrada na Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre.

 

Capítulo 13 - O encontro de um terapeuta cognitivo-comportamental e um psicanalista na galeteria

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Este capítulo deveria começar com uma epígrafe. E até nisso há conflito.

Porque era para ser aquela “o menino é o pai do homem”, comumente atribuída aos Machados (Antônio ou de Assis), mas sendo do poeta

Wordsworth. Ela não parece a mais adequada. A mais adequada seria

“Mostre-me seus filhos e direi quem és”, mas seu autor não foi localizado.

Pode ser bíblica, pode ser minha, pode ser tua. Agora é nossa e está confusa, em sintonia com o texto que apresenta.

Quarta-feira à noite. Dia dos homens saírem para jantar com seus filhos. O psicanalista e a sua filha entraram na galeteria. Ela estava quase vazia. Com um olhar de esguelha, ele o viu. Conheciam-se muito bem.

Estava à mesa do canto, no primeiro ambiente, com a filha também.

Havia todo um espaço vazio para ocupar, perto da tevê ligada. A filha do analista optou pela mesa ao lado da dele. Era criança, queria calor humano. Ainda era diferente dos adultos e suas teorias, diferenças, vaidades inconciliáveis.

 

Afinal, para que psicanálise?

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[...] ele era, ao mesmo tempo, alegre e triste, cético e crente, meigo e cruel, sentimental e escarnecedor, clássico e romântico. (Heine, 2011)

Ternura, aspereza – delicadeza, grosseria – sentimento, sensualidade... sujeira e deidade – tudo misturado nesse composto de inspirada argila. (Keats; Burns, 2009)

Eu começo pelo fim, pelo menos do ponto de vista da psicanálise. Ou de uma de suas autoras, Melanie Klein (1991).

Ela conta que nascemos invejando. E atacando a fonte da inveja. Se o outro – a mãe, a cuidadora – resiste, a gente termina agradecendo. Assim faz o bebê com a mãe. Klein chamou o fenômeno pelo nome: inveja e gratidão.

Falando em resistir, outro psicanalista, o Winnicott (1969b, 1975), especificou que a maior função de um psi (e dos pais e dos educadores)

é sobreviver aos ataques. A prática está cheia de casos assim. O que fazemos? Suportamos e fazemos pouco mais do que tudo isto.

*

Reescrito a partir de uma Aula Inaugural, no Curso de Psicologia da Ulbra.

 

Capítulo 14 - Da realidade líquida a solidez do amigo imaginário

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A questão da ausência sempre esteve presente na psicanálise. Freud também se referiu a ela ao abordar a brincadeira. Os autores contemporâneos não cessam de procurá-la (Green, 2010).

Dito isso, é preciso reconhecer que, para falar de amigo imaginário, deve-se antes mencionar o inimigo real. Ele ameaça, ele confronta, não podemos bater de frente. É como os monstros, a quem é preciso respeitar, escolhendo cantigas certeiras, fantasias eficazes, afetos sólidos ou pelo menos expressados firmemente. E, claro, o escudo de bons encontros.

Ninguém encara um monstro sem histórias ou metáforas. Sem amigo, nem que imaginário.

Continuemos o embate a partir da ausência, que retomaremos no final: viagem que se preze parte, encontra, depois volta às origens. Agora Freud, outra vez. Afinal, ele não fez apenas o primeiro atendimento de um adulto por meio da psicanálise. Realizou também o de uma criança.

O Pequeno Hans tinha cinco anos e, depois de passar um bom tempo interessado por pintos pessoais e alheios, desenvolveu uma fobia. Agora queria ficar escondido em casa, porque tinha medo de ser mordido por um cavalo.

 

Capítulo 15 - Poesia e corpo: matérias-primas da subjetividade

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O escritor é alguém que brinca com o corpo da mãe.

(Barthes, 2010)

O tema deste capítulo é o cruzamento do corpo e da subjetividade neste momento histórico de pane dos dois, especialmente no movimento do primeiro para a segunda. A poesia faz a ponte. A poesia faz falta. A poesia preenche.

Exageramos com o corpo, carecemos da subjetividade. Exagerar aqui significa utilizá-lo muito com pouco afeto, mais afeito a cabeça como

D.H. Lawrence (2008) descreveu em sua prosa com poesia: “Quando nos penetramos, fazemos nascer uma chama. Até as flores são criadas pela cópula do sol com a terra”.

Ora, a saúde mental também é a possibilidade de construir sentidos, fomentar mentalização, trocas interpessoais; enfim, encontro. Crescer é fazer laços, vínculos (Mazet).** E acrescentamos: laços e vínculos são subjetivos.

Vivemos tempos narcisistas, autocentrados, virtuais, adjetivados como esta descrição. Fechados e pouco substantivos. Solitários. Resultado:

*

 

Capítulo 16 - O brincar e a subjetividade: ou isto ou aquilo

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É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo nos dois lugares! (Meireles, 1977)

Dia desses, perguntaram-me qual a importância de brincar para a subjetividade. Eu respondi, perguntando:

– Está brincando?

Não estava, então eu disse a fim de mais brinquedo:

– Toda. Brincando, brincando, subjetiva-se.

Decidi ser mais drástico, menos lúdico:

– Não há outro modo de sobreviver. E viver mentalmente falando. A concretude mata, que o diga a psicossomática.

O interlocutor imaginário pensou que eu estava realmente brincando.

E eu estava. Sempre que posso, vou à busca de mais brincadeira, mais

*

Reescrito a partir de um artigo publicado originalmente na revista Pátio Educação Infantil.

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A INFÂNCIA ATRAVÉS DO ESPELHO

subjetividade. Sou razoavelmente normal na luta contra a objetividade mortífera da falta de sentido na vida e na morte.

Brincar é sério, eu também disse. Mas ele não se contentou. A ronha aqueceu, transbordou, desentendemo-nos ferozmente. Mas não queríamos perder a amizade (real, imaginária), cenário de novas brincadeiras; portanto, falamos. Fôssemos crianças, brincávamos.

 

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