Inconsciente e Responsabilidade: Psicanálise do Século XXI

Autor(es): Jorge Forbes
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“[…] o inconsciente do qual vamos tratar é aquele que leva o ser falante a responsabilizar-se pela invenção de seu estilo singular de usufruir de seu corpo e de sua vida. no discurso da psicanálise difundida nos meios de comunicação, responsabilidade e inconsciente não são termos que aparecem conjugados, chegando a ser considerados excludentes. Assim, a responsabilidade estaria associada à consciência plena e onde houvesse inconsciência não poderia haver responsabilidade. Diante de um ato que cometeu – voluntária ou involuntariamente – e sobre o qual estranha a própria participação, é comum a pessoa dizer: ‘Só se foi o meu inconsciente’. No século XXI, o psicanalista que acredita no inconsciente irresponsável não trata o sintoma e não cura. É urgente considerar a responsabilidade pelo que é inconsciente, pois já não podemos mais contar com as ficções – tais como a do mito paterno – que, até o século passado, nos permitiam escapar, dizendo: ‘Foi por causa de papai’. Também a clínica psicanalítica, por essas mesmas razões, atravessa um novo momento. […]”

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Introdução

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IN T RO DUÇ ÃO

PROVOCAÇÕES PSICANALÍTICAS

Os argumentos em que se baseia o tema deste livro e os tópicos

decorrentes dele serão apresentados como “Provocações Psicanalíticas”. Pretendo questionar se ainda é pertinente, nos dias de hoje, discutir as raízes da moralidade com fundamento na culpabilidade. Penso que a psicanálise pode vislumbrar novas possibilidades de orientação na teoria e na clínica, atualizando sua abordagem da moralidade a partir de uma noção mais contemporânea de responsabilidade, o que implica a necessidade de uma nova clínica psicanalítica para o século XXI.

Podemos perceber, na obra do psicanalista Jacques Lacan, uma mudança de paradigma. Apoiado na antropologia estrutural de Lévi-Strauss e na inversão do signo linguístico de Ferdinand de Saussure, para destacar a função fundadoXI

ra do sentido do significante, Lacan (1953/1998, 1957/1998) lastreou sua primeira teoria do sujeito; de um sujeito mortificado pelo significante e, em decorrência, sujeitado ao sentimento de culpa pelo desejo incestuoso. Ao final de seu ensino, nova clínica do ser falante – que, diferentemente do sujeito,

 

1. O princípio responsabilidade e o inconsciente

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1. O P R I N C Í P I O

RE S P ON SA B I L I DA D E E O

IN CON SCIE N TE

A psicanálise nasceu e estabeleceu-se com a teoria do trau-

ma passado e, por isso, o tratamento analítico foi definido por

Freud como sendo a cura da memória. Geralmente, a pessoa procura um analista por estar acometida de algum mal-estar que a impede de atingir seus objetivos. O analista a recebe baseado na hipótese de que se algo vai mal, é porque alguma passagem da história de vida da pessoa agora é um empecilho, funcionando como um locus minori resistentiae, um fator constante de entrave: o trauma – a ser removido pela análise.

A expressão “cura da memória” está diretamente associada a essa forma de compreender o sofrimento.

Ao longo de seu ensino, Freud teve posições diferentes na compreensão do acontecimento traumático. A primeira está

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relatada na Carta 69, de 21 de setembro de 1897, enviada a Wilhelm Fliess. Até aquele momento, ele havia considerado que acontecimentos objetivos da vida ficariam marcados na pessoa, tais quais cicatrizes psíquicas, determinando, daí em diante, disfunções expressas em sintomas. Na Carta

 

2. A psicanálise do homem desbussolado

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2. A P S I CA N Á L I S E D O H O ME M

DES B US SO L A D O

Uma teoria abraça a paisagem de sua época, algumas vezes

para melhor, outras para pior. No caso de nosso estudo, a importância da responsabilidade face ao inconsciente só ficou mais evidente quando a organização do laço social do homem ocidental passou da chamada orientação industrial para um novo modelo, globalizado.

Essa passagem ocorreu desde meados do século xx até, principalmente, a virada do século xxi. Celebrada na obra de

Alvin Toffler (2007), A terceira onda, foi retomada por muitos, entre eles por Gilles Lipovetsky (2004), em seu livro Metamorfoses da cultura liberal. A importância do estudo de Toffler

é o fato de reelaborar a história da humanidade em termos econômicos e políticos, até chegar à atualidade.

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De acordo com Toffler (2007), podemos pensar em três ondas de transformações sociais que marcam a história da humanidade. Ele localiza a primeira onda há 3.000 anos, começando com o advento da agricultura. É quando alguém tem a ideia de semear e cultivar a terra. O homem, que é nômade e tribal, passa a se reunir em fazendas e viver em comunidades. Vão se formando assentamentos permanentes, cidades, e a vida urbana vai sendo organizada em torno dos camponeses. Assim, dá-se a transformação das populações nômades em colonos e fazendeiros. Depois, há cerca de 300 anos, começa a segunda onda de mudança, com o início da

 

3. A psicopatologia e o final da análise

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3. A P S I CO PATO LO G I A E O F INA L

DA A N Á L I S E

A psicopatologia é o mapa pelo qual o clínico se orienta

e é importante discuti-la quando estamos revendo a atualidade da práxis psicanalítica. Neste capítulo, a psicopatologia será examinada em dois aspectos. Primeiramente, como a entendemos hoje. Depois, como foi sua presença na história da psicanálise.

3.1. COMO ENTENDEMOS A PSICOPATOLOGIA

Pensar, inicialmente, em como entendemos a psicopatologia implica decidirmos se hoje consideramos que ela gera determinantes estáveis. Isso implicaria que, nas afirmações “este paciente é psicótico”, “aquele paciente é histérico” e “aquele outro é maníaco”, estar-se-ia descrevendo uma entidade. O quadro psicopatológico determinaria um estado, objetiva49

mente observável. É uma maneira de ver frequente na medicina, que gerou o propalado movimento da Medicina Baseada em Evidências.

No entanto, na própria medicina há outra possibilidade; por exemplo, na visão de Carol Sonenreich (2005), quando discorre sobre o diagnóstico. Esse autor considera que a psiquiatria limita-se às operações de sua competência, mas inserida na comunicação, nas relações humanas, sem aspiração a verdades absolutas. Na psiquiatria, segundo ele, não se busca unanimidade diagnóstica, a qual não daria garantia quanto

 

4. Felicidade não é bem que se mereça

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4. F EL I CI DA D E N ÃO É B E M

QUE SE M E R EÇ A 1

Temos nos referido com insistência à felicidade em psicanálise,

como acabamos de fazer no capítulo precedente. Isso nos leva a aprofundar um pouco mais o tema, pois trata-se da felicidade possível diante do real, que se consegue em uma psicanálise, fora da moral tradicional do merecimento.

Felicidade é um tema mais comum nos livros de autoajuda, de livrarias de aeroporto, que assunto de psicanalistas. Ao contrário do sorriso bondoso que carregam os arautos da felicidade, os analistas apresentam-se normalmente com o ar de ceticismo daqueles que conhecem o desejo, a saber que alguma coisa sempre lhes estará faltando, mesmo se você ainda

1 Este capítulo foi apresentado no XVII Encontro Brasileiro do Campo

Freudiano, Rio de Janeiro, 21 a 23 nov. de 2008. Publicado em Opção lacaniana, n. 54, 2009, p. 55-9.

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não tiver descoberto. É o que faz, também, que cara de felicidade seja associada à tolice, enquanto cara fechada seja vista como sinal de seriedade.

 

5. A psicanálise em sua clínica

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5. A P S I CA N Á L I S E E M S UA

CLÍ N I CA

Apresentamos neste capítulo um caso clínico, com o ob-

jetivo de refletir sobre os aspectos até aqui desenvolvidos da primeira e da segunda clínica de Lacan: as formações do inconsciente, na primeira, e a responsabilidade diante do acaso, na segunda.

Mensalmente, somos convidados a dirigir uma apresentação de pacientes em um hospital psiquiátrico de referência nacional na área, que pertence à Universidade de São Paulo

(USP).

O exercício de apresentação de pacientes não é uma novidade psicanalítica, é uma herança da psiquiatria, sendo habitual, aí, esse exercício clínico, especialmente em serviços de pesquisa. Consiste na entrevista de um paciente, muitas vezes internado, por um grupo de membros do corpo clínico.

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Uma diferença básica entre a apresentação psiquiátrica e a psicanalítica, a considerar, é que, em uma apresentação psiquiátrica, várias pessoas, psiquiatras especialmente, interrogam o paciente; já na apresentação psicanalítica só uma pessoa o interroga, ocupando a posição de analista, enquanto os demais presentes assistem sem interferir, a não ser no momento posterior à apresentação, na discussão.

 

6. A psicanálise além de sua clínica

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6. A P SI CAN Á L I S E A L É M

DE S UA CL Í N I C A

Na introdução – Provocações Psicanalíticas –, afirmamos

que a psicanálise de hoje ultrapassa o interesse da clínica exclusiva do consultório. Ela também se preocupa e age, o que é fundamental, nas mais variadas manifestações do laço social: na medicina, na família, nas escolas, nas empresas, na política e na sociedade em geral. Para nós, diferentemente daqueles que pensam que a psicanálise estaria desaparecendo junto a outras disciplinas que surgiram nos séculos xix e xx, a psicanálise está só começando. Não conhecemos prática social, ao menos até o momento, que melhor articule o novo laço social da globalização, marcado pela incompletude do real, tal como já exposto. Vamos dar aqui alguns exemplos do que pensamos, a começar com a medicina.

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6.1. MEDICINA

Examinemos a influência da psicanálise sobre a expressão dos genes; seria fato que aquilo que está escrito no código genético fosse um maktoub, uma determinação inflexível de uma vida?

 

7. Responsabilidade: estar desabonado do inconsciente

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7. R ES P ON SA B I L I DA D E:

ES TA R DESA B O N A D O D O

IN CO N SCI E N TE

Os conceitos de Responsabilidade e Inconsciente pouco fo-

ram articulados pelos pós-freudianos. No entanto, defendemos aqui que sua articulação é fundamental à psicanálise na medida em que constitui sua ética, realçada por Jacques Lacan.

Nos capítulos iniciais deste trabalho, mostramos como Freud responsabilizava o sujeito através da assunção do conteú­do inconsciente, que assim descobria-se dividido, castrado.

Há em Freud (1925/1976, p. 163) uma referência especialmente significativa sobre essa forma de responsabilidade, em um artigo que contém o termo no próprio título: “Responsabilidade moral pelo conteúdo dos sonhos”. Nesse escrito, ele não detalha em que consiste a responsabilidade proporcionada pelo seu trabalho analítico, mas aponta de forma sufi14 1

cientemente clara que a responsabilidade implicada em uma análise inclui a responsabilidade que o ego reconhece – ou seja, a responsabilidade comunicável, moral, social ou jurídica

 

Conclusão

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CO N CLUSÃO

CONSEQUÊNCIAS

O que podemos extrair dessas propostas? Primeiramente, que o contato humano implica responsabilidade: como o significante excede o sentido, seu uso requer que suportemos a novidade que ele propicia. O maior contato humano proporcionado pela globalização implica maior responsabilidade, e o tema ganha relevo hoje, conforme são desvalorizadas as “desculpas” encontradas nos saberes que nos são fornecidos pela tradição e pela ciência – que se desgastam como “lugares-comuns”.

Sendo assim, há uma responsabilidade social que opera em função de sermos seres falantes e que não depende sequer da responsabilidade jurídica (adstrita às situações em que há imputação normativa).

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Além disso, a mudança de valores sociais não implica irresponsabilidade. Se já não implica dentro do direito – como se pode pensar e como vimos, desde Kelsen (1998) –, tampouco implica aspectos da vida que passam longe do direito. A responsabilidade é pelo significante dissociado da significação, o significante feito letra, que toca o corpo, como trabalhamos no capítulo 3 – no ponto capitonê – e como há pouco foi definido em uma citação de Jacques Lacan. A responsabilidade

 

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