A Filosofia como Medicina da Alma

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Quem está com a alma doente? Há uma medicina especial para quem está com a alma doente? Uns dizem que no lugar do padre, hoje em dia, temos o psicólogo e o psiquiatra nessa atividade. Outros dizem que tudo isso não passa de uma grande bobagem, e que uma conversa com os amigos na mesa do bar cura qualquer alma amargurada. Em ambos os casos, a noção de alma doente é extremamente reduzida. A medicina da alma nasceu como filosofia. Há quem até chegue a dizer que a filosofia é que nasceu, verdadeiramente, já como medicina da alma. Todos devem concordar, no entanto, que a alma amargurada é apenas um dos males, mas não resume o todo que a medicina da alma tem por objeto.

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1. Sócrates pode curar sua alma?

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Capítulo 1

Sócrates pode curar sua alma?

“A filosofia é coisa de homens”. Considerando os tempos heroicos da filosofia grega clássica, essa frase é verdadeira.

Mas, o melhor seria dizer: a filosofia grega clássica é coisa de pessoas livres, portanto, coisa de homens – de homens eroticamente especiais.

Sócrates foi o rei da pederastia. Voraz caçador, ele sempre estava onde os jovens; conversavam e praticavam atividades físicas. Ali, os garotos exibiam seus corpos e tornavam-se irresistíveis aos homens mais velhos. Os belos jovens, alguns até pré-adolescentes, pavoneavam-se na frente deles, mas Sócrates não caía nessa. Ele tinha uma maneira especial de se envolver com os jovens; esmerara-se naquilo que Platão chamou de “a arte do amor filosófico aos rapazes”.1 Essa arte erótica, saudada por

Platão, diferenciava-se da prática tradicional da pederastia grega.

Sócrates inaugurou a inversão da relação de pederastia. Em vez de se desdobrar em elogios aos belos jovens, como era a praxe, Sócrates os atraía para a conversação e, então, em pouco tempo, trazia-os para “o seu lugar”.2 Colocava-os como aqueles

 

2. Platão e a alma melhorada pelo amor

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Capítulo 2

Platão e a alma melhorada pelo amor

Nietzsche escreveu que Platão, por meio de uma inge­ nuidade grega impossível a um cristão, confessou que a fi­ losofia platônica não existiria se não houvesse tão belos jovens em Atenas. Diante desses garotos, o filósofo enlouqueceria em uma “vertigem erótica”. Sua alma não teria repouso enquanto não conseguisse plantar “a semente das coisas mais elevadas num solo tão belo”.8

Nietzsche não inventou a metáfora, claramente erótica,

“plantar a semente”, ele a recolheu diretamente do texto platônico. Tanto quanto Sócrates, Platão jamais desconsiderou o erotismo enquanto o impulso básico e constante da filosofia.

Contudo, o erotismo de Platão era diferente do de Sócrates.

Sócrates viveu o erotismo das ruas de Atenas no exercício da sua medicina da alma. Seu comedimento e sua insistência em trazer as energias eróticas dos gregos antes para o cuidado da alma que para a festa do corpo não eram à toa. A rua é a casa do que é cru, rude, simples. Falou alto ao coração de

 

3. Epicuro e o Tetrapharmako contra a ansiedade

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Capítulo 3

Epicuro e o Tetrapharmako contra a ansiedade

A pederastia e o homoerotismo, excessivamente presentes do contexto socrático-platônico, faltaram em Epicuro. Aliás, o próprio erotismo em geral adquiriu uma versão menos heroica no mundo de Epicuro. As relações entre os filósofos e os seus entusiastas estiveram muito mais afeitas à amizade que ao amor.

Philia e eros se tornaram palavras menos intercambiáveis e, em certo sentido, mais próximas do modo como nós, modernos, as entendemos.

A prática da medicina da alma se desenvolveu não mais tendo a cidade como uma comunidade, e sim fazendo-se na escola filosófica, que, por sua vez, tendeu a se tornar uma comunidade, às vezes em desdém aos deveres de cidadania. A filosofia não perdeu suas grandes áreas de investigação, mas, quanto à sua aplicação, ganhou um rumo menos articulado à política e, sem dúvida, mais subjetivo.

De Sócrates a Epicuro, a medicina da alma fez um estranho movimento. Em um primeiro momento, com Sócrates, o im­ portante da filosofia como cuidado da alma se fez pelo exercício do “exame da vida”. Em um segundo momento, com Platão, o amor ganhou o centro das atenções e o cuidado da alma recebeu um forte aporte teórico. Floresceu a ideia da descrição da atividade da alma como uma usina de transformação das

 

4. Aristóteles e a qualidade de vida

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Capítulo 4

Aristóteles e a qualidade de vida

O que se quer é “viver bem”, não é verdade? Isso, hoje em dia, não se confunde com a questão de termos ou não

“qualidade de vida”?

A expressão “qualidade de vida” é algo próprio de nossos tempos. Não há dia que não ouvimos avaliações sobre onde há ou não “qualidade de vida” ou, então, se a condição de saúde de alguém tem ou não “qualidade de vida”. Referimo-nos com essa expressão às condições gerais das cidades e, também, às alternativas que temos em tratamentos de saúde, quando é o caso de ponderar sobre decisões de operações, medicamentos e coisas afins. Tudo isso se agrupa quando a questão é sobre a nossa vida psíquica.

Uma boa cidade para se viver ou, como agora se diz com frequência, um centro com “qualidade de vida” não pode favo­ recer o estresse, ou seja, não pode criar condições que gerem distúrbios psicológicos ou, pior, psicossomáticos. O que invo­ camos com essa ideia de “qualidade de vida” é a posse de elementos que nos permitam, antes, não perder a saúde do que propriamente alcançá-la. Não se trata de evocarmos cidades que, como no passado, se propunham a funcionar como locais próprios para tratamentos de determinadas doenças – cidades balneários e similares –, mas de considerarmos cidades

 

5. Santo Agostinho, aspiração a cirurgião da alma má

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Capítulo 5

Santo Agostinho, aspiração a cirurgião da alma má

A Rede Globo de TV não consegue admitir a existência do mal. Não se pode dizer se é ou não uma maneira de autodissimulação. O que se constata é que, em suas novelas, que são bem representativas da visão de mundo daquele aparato midiático, é claro que há a apresentação de personagens maldosos, mas, ao fim e ao cabo, quase sempre, eles são apresentados como psicopatas. “Falta-lhes um parafuso”, por isso cometem crimes bárbaros. O prazer que sentem com o mal de outros pode até ter lá, no meio da história, uma gênese mais ou menos cabível em termos literários. Mas, ao final, o destino do malfeitor é se apresentar maluco. A cadeia ou a morte do personagem maldoso não valem se este não se mostra, em algum aspecto, como um exemplar de alguma patologia.

Essa visão simplória tanto da loucura quanto do mal serve para produzir algum efeito tranquilizador ao final. Que não se preocupem os telespectadores, o mal – o demônio em pessoa

 

6. Rousseau e a invenção da alienação como doença da alma

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Capítulo 6

Rousseau e a invenção da alienação como doença da alma

Não existiram outros regimes políticos que mais detec­ taram indivíduos de mente doente que aqueles inspirados no marxismo. Os países comunistas, capitaneados pela antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), foram campeões em apontar para os indivíduos decretandoos insanos ou “à beira de colapsos nervosos” ou com algum tipo de neurose e coisas afins. Não havia nesses países gente de “alma doente”, mas “doentes mentais” não faltavam. Em geral, eles manifestavam essas doenças, curiosamente, após alguma divergência com o “marxismo oficial”. No entanto, o próprio Karl Marx sempre foi muito relutante em falar de doenças psíquicas. Para Marx, talvez houvesse realmente só uma doença da alma: a alienação.

Ao pronunciar alienação, não me refiro aqui à loucura.

Alienação, aqui, diz respeito a outra noção. No entanto, na conta da filosofia ou, mais exatamente, de um tipo da filosofia calçada no Romantismo, ela é efetivamente uma doença da alma

 

7. Nietzsche e o amor fati em busca da saúde

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Capítulo 7

Nietzsche e o amor fati em busca da saúde

Amor fati – esta fórmula de Nietzsche é a medicina da alma que o alemão oferece em contraposição às medicinas gregas e cristãs, os quais, para ele, envolvem algum nível de moralização. As diretrizes ético-morais são confirmações da práxis de um povo e, ao mesmo tempo, uma ordem para que essa práxis não se perca, ou até se aperfeiçoe, o que asseguraria a existência histórica de seus protagonistas.

Essa ideia de sobrevivência nunca atraiu Nietzsche. Seu projeto era superar a nós mesmos, os humanos, que ele via como impossíveis de não serem pequeninos vermes morais, arrastando-se na sobrevivência.

Assim, a ideia do amor fati, para Nietzsche, jamais foi uma regra ético-moral – uma expressão para o dever ser. Ele a tomou como uma fórmula pela qual se pode enunciar a possibilidade do amor pela vida como ela é. Assim, talvez fosse possível dizer que Nietzsche, diferentemente de qualquer outro filósofo, foi médico da alma. O primeiro médico da alma que fez essa medicina se desgarrar da filosofia, ou seja, de algum projeto de dever ser. O que ele tinha nas mãos era menos a filosofia ético-moral como medicina, e, sim, uma pura medicina da alma. Nada além da ideia de conduta sadia contra a ideia da conduta moral.

 

8. Foucault e a alma como prisão do corpo

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Capítulo 8

Foucault e a alma como prisão do corpo

I

Pronto para a morte, Sócrates a saudou dizendo que ela seria sua libertação do corpo. Modificada, essa expressão de

Sócrates poderia endossar um platonismo rasteiro, que afirmaria algo como “o corpo é a prisão da alma”. Os cristãos preferiram não falar em prisão. Douraram a pílula dizendo que “o corpo é o templo da alma”. Já em nossos tempos, o nietzscheano Foucault, na contramão, fustigou-nos dizendo que “a alma é a prisão do corpo”.

A alma é a prisão do corpo? Como? O que Foucault quis dizer com uma frase desse tipo que, convenhamos, não deixa de ser esquisita?

Falando sobre o nascimento e o desenvolvimento das prisões modernas, Foucault afirma que o “homem real”, que é “objeto do conhecimento, da reflexão filosófica ou da intervenção tecnológica” na modernidade, não é substituído pela alma,

“a ilusão dos teólogos”. É necessário notar, diz Foucault, que o próprio homem, nos tempos modernos, é o “efeito de uma subjetivação mais profunda”. Nesse sentido, pode-se então enxergar uma “alma que habita o homem e o traz à existência”.

 

9. Mais doenças, mais remédios

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Capítulo 9

Mais doenças, mais remédios

A inveja

Quando fiquei sabendo da morte de meu pai, enfartado em uma ambulância a caminho do hospital, a primeira coisa que perguntei para a minha mãe, que o acompanhava, é se ele, ao final, teve medo, se ficara angustiado pelo medo. O que eu não queria era que meu pai passasse pelo ataque de ansiedade.

Minha mãe disse que não, mas eu jamais saberei a verdade.

Ansiedade extrema, angústia, medo. Esses três estados da alma são primos entre si. São males terríveis. No mundo antigo, eles tiveram seu lugar especial. Epicuro considerou a ansiedade como o pior deles, fruto do medo e porta aberta para a angústia. Fez toda sua filosofia em torno da ideia de eliminar a ansiedade. Mas isso não quer dizer que os antigos não se ocuparam de outros infortúnios psíquicos. Sócrates viu na presunção desmedida uma doença da alma. Platão tomou a injustiça da cidade e a consequente anomia como uma preocupação importante. Aristóteles não deixou de considerar uma série de pequenos e grandes males. Todavia, nenhum deles deu a importância que nós, modernos, damos ao que consideramos o nosso pior mal: a inveja.

 

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