História da Riqueza do Homem, 22ª edição

Autor(es): HUBERMAN, Leo
Visualizações: 627
Classificação: (0)

Este livro tem um duplo objetivo. É uma tentativa de explicar a história pela teoria econômica e a teoria econômica pela história. Leo Huberman assim justificou a criação de sua História da Riqueza do Homem - explicação esta sem razão de ser. Se a simples citação da palavra "economia" provoca bocejos entre os jovens numa sala de aula, ler o livro de Huberman, porém, remete o leitor ao desenvolvimento da sociedade humana impulsionado por sangue, revoluções, traições e pactos selados, principalmente, por homens de visão. Pensado anteriormente para leitores juvenis, História da Riqueza do Homem terminou por expandir seu alcance até tornar-se um clássico obrigatório. Cobrindo da Idade Média até o nascimento do nazifascismo, a saga da economia mundial, infelizmente, encerrava-se em meados dos anos 1930. Esta 22ª edição amplia-se e renova-se ao trazer dois capítulos assinados pela historiadora Marcia Guerra, cobrindo a nova era iniciada pela Segunda Guerra Mundial - fazendo desta a única edição atualizada no mundo.

24 capítulos

Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta

1 SACERDOTES, GUERREIROS E TRABALHADORES

ePub Criptografado

O Trabalho na Idade Média.

O Sistema Agrícola. O Servo e o Senhor.

A Situação da Nobreza, da Realeza e do Clero.

Os diretores dos filmes antigos costumavam fazer coisas estranhas. Uma das mais curiosas era seu hábito de mostrar as pessoas andando de carro, depois descerem atabalhoadamente e se afastarem sem pagar ao motorista. Rodavam por toda a cidade, divertiam-se ou se dirigiam a seus negócios, e isso era tudo. Sem ser preciso pagar nada. Assemelhavam-se em muito à maioria dos livros da Idade Média, que, por páginas e páginas, falavam de cavaleiros e damas, engalanados em suas armaduras brilhantes e vestidos alegres, em torneios e jogos. Sempre viviam em castelos esplêndidos, com fartura de comida e bebida. Poucos indícios há de que alguém devia produzir todas essas coisas, que armaduras não crescem em árvores e que os alimentos, que realmente crescem, têm que ser plantados e cuidados. Mas assim é. E, tal como é necessário pagar por uma corrida de táxi, assim alguém, nos séculos X a XII, tinha que pagar pelas diversões e coisas boas que os cavaleiros e as damas desfrutavam. Também alguém tinha que fornecer alimentação e vestuário para os clérigos e padres que pregavam, enquanto os cavaleiros lutavam. Além desses pregadores e lutadores existia, na Idade Média, um outro grupo: os trabalhadores. A sociedade feudal consistia nessas três classes – sacerdotes, guerreiros e trabalhadores, sendo que o homem que trabalhava produzia para ambas as outras classes, eclesiástica e militar. Isso era muito claro, pelo menos para uma pessoa que viveu naquela época, e que assim comentou o fato:

 

2 ENTRA EM CENA O COMERCIANTE

ePub Criptografado

O Investimento da Riqueza na Idade Média.

O Intercâmbio de Mercadorias.

As Cruzadas e o Comércio. Mercados e Feiras.

Hoje em dia, poucas pessoas abastadas possuem cofres cheios de ouro e prata. Quem tem dinheiro não deseja guardá-lo, mas sim movimentá-lo, buscando um meio lucrativo de investimento. Tenta achar onde colocar seu dinheiro de forma a ter uma retirada proveitosa, com o juro mais alto. O dinheiro pode ser aplicado em negócios, em ações de uma companhia siderúrgica; pode ser empregado na aquisição de apólices do governo ou num sem-número de outras coisas. Hoje há mil e uma maneiras de se aplicar capital, na tentativa de obter mais capital.

Mas logo no início da Idade Média, tais portas não estavam abertas aos ricos. Poucos tinham capital para aplicar, e os que o possuíam pouco emprego encontravam para ele. A Igreja tinha seus cofres cheios de ouro e prata, que guardava em suas caixas-fortes ou utilizava para comprar enfeites para os altares. Possuía grande fortuna, mas era um capital estático e não continuamente movimentado, como as fortunas de hoje. O dinheiro da Igreja não podia ser usado para multiplicar sua riqueza, porque não havia oportunidades para isso. O mesmo acontecia à fortuna dos nobres. Se qualquer quantia ia ter às suas mãos, por impostos ou multas, os nobres não podiam investi-la em negócios, porque estes eram poucos. Todo o capital dos padres e dos guerreiros era inativo, estático, imóvel, improdutivo.

 

3 RUMO À CIDADE

ePub Criptografado

O Comércio e as Cidades. Surgem as Corporações.

Choque entre a Cidade e o Senhor Feudal.

Cresce a Influência dos Mercadores.

À medida que o riacho irregular do comércio se transformava em corrente caudalosa, todo pequeno broto da vida comercial, agrícola e industrial recebia sustento e florescia. Um dos efeitos mais importantes do aumento no comércio foi o crescimento das cidades.

Sem dúvida, havia certo tipo de cidades antes desse aumento no comércio, os centros militares e judiciais do país, onde se realizavam os julgamentos e onde havia bastante movimento. Eram realmente cidades rurais, sem privilégios especiais ou governo que as diferenciassem. Mas as novas cidades que se desenvolveram com a intensificação do comércio ou as antigas cidades que adotaram uma vida nova sob tal estímulo adquiriram um aspecto diferente.

Se é fato que as cidades crescem em regiões onde o comércio tem uma expansão rápida, na Idade Média deveríamos procurar as cidades em crescimento na Itália e na Holanda. E é exatamente onde elas surgiram primeiro. À medida que o comércio continuava a se expandir, surgiam cidades nos locais em que duas estradas se encontravam ou na embocadura de um rio, ou ainda onde a terra apresentava um declive adequado. Tais eram os lugares que os mercadores procuravam. Neles, além disso, havia geralmente uma igreja ou uma zona fortificada chamada “burgo”, que assegurava proteção em caso de ataque. Mercadores errantes descansando nos intervalos de suas longas viagens, esperando o degelo de um rio congelado ou que uma estrada lamacenta se tornasse novamente transitável, naturalmente se deteriam próximo aos muros de uma fortaleza ou à sombra da catedral. E como um número cada vez maior de mercadores se reunia nesses locais, criou-se um faubourg, ou “burgo extramural”. E não demorou muito para que a periferia se tornasse mais importante do que o próprio burgo antigo. Logo, os mercadores dessa povoação, em seu desejo de proteção, construíram à volta de sua cidade muros protetores que provavelmente se assemelhavam às paliçadas dos colonos americanos. Em consequência, os muros mais velhos se tornaram desnecessários e ruíram aos pedaços. O burgo mais antigo não se expandiu exteriormente, mas se viu absorvido pela povoação mais nova, onde os fatos se sucediam. O povo começou a deixar suas velhas vilas feudais para iniciar vida nova nessas ativas cidades em progresso. A expansão do comércio significava trabalho para maior número de pessoas, e estas afluíam à cidade a fim de obtê-lo.

 

4 SURGEM NOVAS IDEIAS

ePub Criptografado

Usura e Juro na Idade Média.

A Posição da Igreja.

Os Velhos Conceitos Prejudicam as Transações.

A maioria dos negócios é hoje realizada com dinheiro emprestado, sobre o qual pagam-se juros. Se a United States Steel Company quiser comprar outra empresa de aço que lhe estiver fazendo concorrência, provavelmente tomará emprestado o dinheiro. Poderá conseguir isso emitindo ações, que são simplesmente promessa de devolver, com lucro, qualquer soma de dinheiro que o comprador de ações empregue. Quando o dono da loja da esquina pretende adquirir coisas novas para seu negócio, vai ao banco tomar dinheiro emprestado. O banco empresta determinada importância, cobrando juros. O fazendeiro que quiser comprar uma terra adjacente à sua fazenda pode hipotecar sua propriedade para conseguir o dinheiro. A hipoteca é simplesmente um empréstimo ao fazendeiro sob juros anuais. Estamos tão acostumados a esse pagamento de juros pelo dinheiro emprestado que tendemos a considerá-lo “natural”, como coisa que tenha existido sempre.

 

5 O CAMPONÊS ROMPE AMARRAS

ePub Criptografado

Modifica-se a Situação do Camponês,
que Começa a Ser Dono da Terra.

Novo Regime de Trabalho. As Revoltas Camponesas.

Uma das modificações mais importantes foi a nova posição do camponês. Enquanto a sociedade feudal permanecia estática, com a relação entre senhor e servo fixada pela tradição, foi praticamente impossível ao camponês melhorar sua condição. Estava preso a uma camisa de força econômica. Mas o crescimento do comércio, a introdução de uma economia monetária, o crescimento das cidades proporcionaram-lhe meios para romper os laços que o prendiam tão fortemente.

Quando surgem cidades nas quais os habitantes se ocupam total ou principalmente do comércio e da indústria, passam a ter necessidade de obter do campo o suprimento de alimentos. Surge, portanto, uma divisão do trabalho entre cidade e campo. Uma se concentra na produção industrial e no comércio, o outro na produção agrícola para abastecer o crescente mercado representado pelos que deixaram de produzir o alimento que consomem. Em toda a História o crescimento do mercado constitui sempre um tremendo incentivo ao crescimento da produção. Mas como é possível aumentar a produção agrícola? Há duas formas. Uma é o desenvolvimento intensivo, que significa obter maiores resultados da mesma terra, com maiores plantações, melhores métodos agrícolas e, de modo geral, através de um trabalho mais intensivo e mais científico. A outra é pela extensão da cultura, que significa simplesmente abrir novas terras que não tenham ainda sido cultivadas. Ambos os métodos foram empregados então.

 

6 “E NENHUM ESTRANGEIRO TRABALHARÁ…”

ePub Criptografado

Modifica-se Também a Indústria.

Surge o Artesanato Profissional.

O Regime das Corporações. O Justo Preço.

O Burguês Começa a Substituir o Senhor Feudal.

Também a indústria se modificara. Anteriormente, era realizada na casa do próprio camponês, qualquer que fosse seu gênero. A família precisava de móveis? Não se recorria ao carpinteiro para fazê-los, nem eram comprados numa loja da rua do comércio. Nada disso. A própria família do camponês derrubava a madeira, limpava-a, trabalhava-a até ter os móveis de que necessitava. Precisavam de roupa? Os membros da família tosquiavam, fiavam, teciam e costuravam – eles mesmos. A indústria se fazia em casa, e o propósito da produção era simplesmente o de satisfazer as necessidades domésticas. Entre os servos domésticos do senhor havia os que se ocupavam apenas dessa tarefa, enquanto os outros trabalhavam no campo. Nas casas eclesiásticas também havia artesãos que se especializavam numa arte, e com isso se tornavam bastante hábeis em suas tarefas de tecer ou de trabalhar na madeira ou no ferro. Mas isso nada tinha da indústria comercial que abastece um mercado – era simplesmente um serviço para atender às necessidades de casa. O mercado tinha de crescer, antes que os artesãos, como tais, pudessem existir em suas profissões isoladas.

 

7 AÍ VEM O REI!

ePub Criptografado

Universalismo e Nacionalismo: Desponta o Sentimento Nacional.

A Burguesia Sustenta o Rei.

Decadência das Grandes Corporações.

A Igreja e a Reforma.

Se este livro fosse escrito no século X ou XI teria sido muito mais fácil para o autor. Grande parte do material aqui exposto é baseado no estudo de escritores muito antigos, frequentemente em língua estrangeira – latim, francês antigo ou moderno, alemão antigo ou moderno. O historiador medieval, porém, folheando os documentos do passado, verificaria serem todos escritos na língua que melhor conhecia – o latim. Não faria diferença nenhuma se ele morasse em Londres, Paris, Hamburgo, Amsterdã ou Roma. O latim era a língua universal dos eruditos. As crianças naquela época não estudavam inglês, alemão, holandês ou italiano. Estudavam latim. Falava-se inglês, alemão etc., mas essas línguas só mais tarde passaram a ser escritas. O monge espanhol com sua Bíblia na Espanha lia as mesmas palavras latinas que eram lidas pelos monges de um mosteiro inglês.

 

8 “HOMEM RICO…”

ePub Criptografado

A Desvalorização da Moeda pelos Reis.

Acumulação de Ouro e Prata.

As Grandes Viagens e Descobertas.

A Revolução Comercial. Os Grandes Banqueiros.

Quando o presidente dos Estados Unidos, às três e dez da tarde de 31 de janeiro de 1934, assinou uma proclamação decretando que o número de grãos de ouro num dólar fosse reduzido de 25 8/10 para 15 5/21, estava seguindo um velho costume espanhol. Era também um velho costume inglês, francês e alemão. A desvalorização da moeda é um recurso que tem séculos de idade. Os reis da Idade Média que desejavam ter o dom de Midas, de transformar tudo em ouro, recorriam à desvalorização da moeda como substitutivo adequado para conseguir dinheiro.

Quando o presidente Roosevelt reduziu a percentagem de ouro do dólar, seu objetivo primordial foi o de elevar os preços. O fato de que essa redução tivesse dado ao Tesouro dos Estados Unidos um lucro de cerca de 2 bilhões e 150 milhões de dólares foi apenas incidental. Para os reis da Idade Média, porém, o objetivo principal era o lucro. Não queriam elevar os preços, mas estes se elevavam assim mesmo, devido à desvalorização.

 

9 “…HOMEM POBRE, MENDIGO, LADRÃO”

ePub Criptografado

A Influência Prejudicial das Guerras.

Influxo de Metais Preciosos e Elevação dos Preços.

Lucram os Mercados, Perdem os Governos e os Trabalhadores.

Consequências na Agricultura.

A idade dos Fugger foi também a Idade dos Mendigos. Os dados sobre o número de mendigos nos séculos XVI e XVII são surpreendentes. Um quarto da população de Paris na década de 1630 era constituído de mendigos, e nos distritos rurais seu número era igualmente grande. Na Inglaterra, as condições não eram melhores. A Holanda estava cheia deles, e na Suíça, no século XVI, “quando não havia outra forma de se livrar dos mendigos que sitiavam suas casas ou vagavam em bandos pelas estradas e florestas, os homens de bens organizavam expedições contra esses desgraçados heimatlosen (desabrigados)”.1

Qual a explicação dessa miséria generalizada entre as massas, num período de grande prosperidade para uns poucos? A guerra, como sempre, foi uma das causas. A Primeira Guerra Mundial, de 1914-1918, para muitos, bateu todos os recordes de ruínas e misérias nas regiões da Europa onde a luta se travou. Mas as guerras do período que estudamos foram ainda mais devastadoras – e talvez não tenhamos experimentado nunca algo tão terrível como a Guerra dos Trinta Anos na Alemanha (1618-1648). Cerca de dois terços da população total desapareceram, a miséria dos que sobreviveram era extremamente grande. Cinco sextos das aldeias do império foram destruídos. Lemos de uma delas, no Palatinado, que em dois anos foi saqueada 28 vezes. Na Saxônia, alcateias vagavam livremente, pois ao norte cerca de um terço da terra havia sido abandonado.2

 

10 PRECISA-SE DE TRABALHADORES — CRIANÇAS DE DOIS ANOS PODEM CANDIDATAR-SE

ePub Criptografado

Expansão do Mercado.

O Intermediário e o Industrial Incipiente.

Reação das Corporações. Os Três Sistemas de Produção.

A expansão do mercado. Repita a frase várias vezes, na ponta da língua. Grave-a em seu cérebro. É uma chave importante para a compreensão das forças que produziram a indústria capitalista tal como a conhecemos.

Produzir mercadorias para um mercado pequeno e estável, onde o produtor fabrica o artigo para o freguês que vem ao seu local de trabalho e lhe faz uma encomenda, é uma coisa. Mas produzir para um mercado que ultrapassou os limites de uma cidade, adquirindo um alcance nacional ou mais, é outra coisa inteiramente diferente. A estrutura das corporações destinava-se ao mercado local; quando este se tornou nacional e internacional, a corporação deixou de ter utilidade. Os artesãos locais podiam entender e realizar o comércio de uma cidade, mas o comércio mundial era coisa totalmente diversa. A ampliação do mercado criou o intermediário, que chamou a si a tarefa de fazer com que as mercadorias produzidas pelos trabalhadores chegassem ao consumidor, que podia estar a milhares de quilômetros de distância.

 

11 “OURO, GRANDEZA E GLÓRIA”

ePub Criptografado

O que Faz a Riqueza de um País? Acumulação de Tesouros.

Estímulo à Indústria. Migração de Trabalhadores.

Riqueza pelo Transporte Marítimo. Colônias.

A Política Mercantilista.

O que é que torna rico um país? O leitor tem alguma sugestão? Faça uma lista desses elementos e veja se correspondem ao que pensavam os homens inteligentes dos séculos XVII e XVIII. Estavam eles muito interessados no assunto porque pensar em termos de um Estado nacional, de todo um país em vez de uma cidade, apresentava novos problemas. Era preciso considerar não o que seria melhor para a cidade de Southampton ou a cidade de Lyon ou a cidade de Amsterdã, mas o que seria melhor para a Inglaterra, a França ou a Holanda. Queriam transferir para o plano nacional os princípios que haviam tornado as cidades ricas e importantes. Tendo organizado o Estado político, voltaram suas atenções para o Estado econômico. As coisas que escreveram e as leis que defenderam tinham, todas, um conteúdo nacional. Os governos aprovaram leis que, no seu entender, trariam riqueza e poder a toda a nação. Na busca de tal objetivo, mantinham o olho em todos os aspectos da vida diária e modificavam, moldavam e regulavam todas as atividades de seus súditos. As teorias expressas e as leis baixadas foram classificadas pelos historiadores como “sistema mercantil”. Na verdade, porém, não constituíam um sistema. O mercantilismo não era um sistema no atual sentido da palavra, mas antes diversas teorias econômicas aplicadas pelo Estado em um momento ou outro, num esforço para conseguir riqueza e poder. Os estadistas ocupavam-se do problema não porque lhes agradasse pensar nele, mas porque seus governos estavam sempre extremamente interessados na questão – sempre quebrados e precisando de dinheiro. O que torna rico um país não era, portanto, uma pergunta ociosa. Era coisa real. E tinha de ser respondida.

 

12 DEIXEM-NOS EM PAZ!

ePub Criptografado

Revolta contra o Mercantilismo.

A Doutrina do Laissez-faire. Os Fisiocratas.

O Conceito de Renda Nacional. O Comércio Livre.

Mil setecentos e setenta e seis foi um ano de revolta. Ano notável. Aos norte-americanos, ele lembra a Declaração da Independência, a revolta contra a política colonial mercantilista da Inglaterra; aos economistas de todo o mundo, lembra a publicação da A riqueza das nações, de Adam Smith – súmula da nascente rebelião contra a política mercantilista – restrição, regulamentação, contenção. Um número cada vez maior de pessoas discordava da teoria e da prática mercantilistas. Não concordava porque sofria com elas. Os comerciantes queriam uma parte dos enormes lucros das companhias monopolizadoras privilegiadas. Quando tentaram participar delas, foram excluídos como intrusos. Os homens que tinham dinheiro desejavam usá-lo como, quando e onde lhes aprouvesse. Queriam aproveitar todas as oportunidades proporcionadas pela expansão da indústria e do comércio. Sabiam o poder que lhes dava o capital e desejavam exercê-lo livremente. Estavam cansados do “podem fazer isso, não podem fazer aquilo”. Estavam fartos das “Leis contra… Impostos sobre… Prêmios para…” Queriam o comércio livre.

 

13 “A VELHA ORDEM MUDOU…”

ePub Criptografado

Só os Pobres Pagavam Impostos.

O Progresso Abre os Olhos do Camponês.

A Revolução Francesa. A Burguesia: Quem Era?

A Burguesia Lidera, Camponeses e Trabalhadores Lutam.

O Código Napoleônico, Vitória Burguesa.

Que pensaria o leitor de um governo que taxasse os pobres, mas não os ricos? Totalmente louco, seria seu primeiro pensamento; refletindo, poderia ocorrer-lhe que, de certa forma, é o que o governo dos Estados Unidos está fazendo hoje. Haverá naturalmente muita gente para discordar disso – gente que procuraria provar que os ricos nos EUA pagam uma proporção de impostos mais do que justa. Mas quanto ao fato de que o governo francês do século XVIII realmente cobrava impostos dos pobres, e não dos ricos, não pode haver discordância.

E não pode haver porque as próprias classes privilegiadas admitiam estar isentas praticamente de todas as taxas da época. O clero e a nobreza julgavam que seria o fim do país se, como a gente comum, tivessem de pagar impostos. Quando o governo da França estava em má situação financeira, com as despesas se acumulando rapidamente e deixando muito longe a receita, ocorreu a alguns franceses que a única saída dessa dificuldade era cobrar impostos dos privilegiados. Turgot, ministro das Finanças em 1776, tentou pôr em prática algumas reformas – muito necessárias – do sistema fiscal. Mas os privilegiados não queriam saber disso. Cerraram fileiras em torno do Parlamento de Paris, que assim definiu, claramente, sua posição: “A primeira regra da justiça é preservar a alguém o que lhe pertence: essa regra consiste não apenas na preservação dos direitos de propriedade, mas ainda mais na preservação dos direitos da pessoa, oriundos de prerrogativas de nascimento e posição… Dessa regra de lei e equidade segue-se que todo sistema que, sob a aparência de humanitário e beneficente, tenda a estabelecer igualdade de deveres e destruir as distinções necessárias, levará dentro em pouco à desordem (resultado inevitável da igualdade) e provocará a derrubada da sociedade civil. A monarquia francesa, pela sua constituição, é formada de vários Estados distintos. O serviço pessoal do clero é atender às funções relacionadas com a instrução e o culto. Os nobres consagram seu sangue à defesa do Estado e ajudam o soberano com seus conselhos. A classe mais baixa da nação, que não pode prestar ao rei serviços tão destacados, contribui com seus tributos, sua indústria e seu serviço corporal. Abolir essas distinções é derrubar toda a constituição francesa.”1

 

14 DE ONDE VEM O DINHEIRO?

ePub Criptografado

Dinheiro que É Capital e Dinheiro que Não É.

O Capital e os Meios de Produção.

Como os Impérios Acumulam Capital para a Indústria Moderna.

Novas Formas de Produção, Nova Religião.

Dois homens esperam na fila para comprar entradas para o espetáculo. Cada um paga $9,90 por três poltronas. Ao se afastar da bilheteria, um deles se reúne a seus dois amigos. Entram no teatro, sentam-se e esperam que o pano se levante. O outro homem deixa a bilheteria, coloca-se na calçada em frente ao teatro e, com as entradas na mão, aborda os transeuntes. “Quer um lugar no centro para hoje?” – pergunta. Pode ser que acabe vendendo as entradas (por $4,40 cada) ou pode ser que não venda. Não importa.

Há alguma diferença entre os seus $9,90 e os do outro homem? Há, sim. O dinheiro do Sr. Cambista é capital, o dinheiro do Sr. Frequentador do Teatro, não. Onde está a diferença?

O dinheiro só se torna capital quando é usado para adquirir mercadorias ou trabalho com a finalidade de vendê-los novamente, com lucro. O Cambista não queria ver o espetáculo. Pagou $9,90 com a esperança de tê-los de volta – com acréscimo. Portanto, seu dinheiro tinha a função de capital. O Sr. Frequentador do Teatro, por outro lado, pagou seus $9,90 sem pensar em consegui-los de volta – simplesmente desejava ver o espetáculo. Seu dinheiro não tinha a função de capital.

 

15 REVOLUÇÃO – NA INDÚSTRIA, AGRICULTURA TRANSPORTE

ePub Criptografado

A Máquina a Vapor. O Crescimento Demográfico.

O Novo Tipo de Vida no Século XVIII.

Os jornais de 150 anos atrás não tinham seções de “O Impossível Acontece”, com suas histórias de acontecimentos incríveis. Se tivessem, a Birmingham Gazette, de 11 de março de 1776, teria sabido imediatamente onde colocar esta surpreendente notícia: “Na última sexta-feira, uma máquina a vapor construída segundo os novos princípios do Sr. Watt foi posta em funcionamento em Bloomfield Colliery… na presença de alguns homens de ciência cuja curiosidade fora estimulada pela possibilidade de ver os primeiros movimentos de uma máquina tão singular e poderosa… Com esse exemplo, as dúvidas dos inexperientes se dissipam e a importância e utilidade da invenção se firmam decididamente. … [Foi] inventada pelo Sr. Watt, após muitos anos de estudo e grande variedade de experiências custosas e trabalhosas.”1

Em 1800 a “importância e utilidade da invenção” do Sr. Watt se havia tornado tão evidente aos ingleses que ela estava em uso em 30 minas de carvão, 22 minas de cobre, 28 fundições, 17 cervejarias e 8 usinas de algodão.2

 

16 “A SEMENTE QUE SEMEAIS, OUTRO COLHE…”

ePub Criptografado

A Situação dos Trabalhadores Durante e Depois
da Revolução Industrial do Século XIX.

O Regime Fabril. O Trabalho das Crianças.

A Revolta contra as Máquinas. Os Sindicatos e o Voto.

Ouvi dizer num ônibus da Quinta Avenida: “Meu Deus! Mais piquetes! Já estou cansada desses grevistas andando de um lado para outro na frente de lojas e fábricas, com seus cartazes de protesto. Por que o governo não mete todos eles na cadeia? ” A senhora indignada que fez essa observação não conhecia bem a história. Pensava ter uma solução fácil para um problema simples. Mas estava totalmente errada. Sua solução fora tentada repetidas vezes, sem que resolvesse nada. Na Inglaterra, há mais de cem anos um magistrado comunicou ao Ministério do Interior seus planos para esmagar uma greve: “As medidas que proponho são simplesmente prender esses homens e mandá-los ao trabalho forçado.”1

 

17 “LEIS NATURAIS” DE QUEM?

ePub Criptografado

As Leis Naturais da Economia Clássica.

A Economia Individual e a Economia da Sociedade.

O Malthusianismo.

Ricardo e o Valor do Trabalho.

As coisas caem para baixo, e não para cima. O leitor sabe o que lhe aconteceria se pulasse da janela. Os físicos nos fizeram um favor ao explicar isso. Newton formulou a lei da gravidade, uma de uma série de leis naturais que, segundo nos informam, descreve o universo físico. O conhecimento dessas leis naturais nos permite planejar nossas ações e atingir um objetivo desejado. Agir na ignorância delas ou sem levá-las em conta pode ter más consequências.

Do mesmo modo os economistas da época da Revolução Industrial desenvolveram uma série de leis que, diziam, eram tão válidas para o mundo social e econômico como as leis dos cientistas para o mundo físico. Formularam uma série de doutrinas que eram as “leis naturais” da Economia. Estavam convencidos de suas verificações. Não discutiam se as leis eram boas ou más. Não havia por que discutir. Suas leis eram fixas, eternas. Se os homens fossem inteligentes e agissem de acordo com os princípios que expunham, muito bem; mas se não, se agissem sem respeito às suas leis naturais, sofreriam as consequências.

 

18 “TRABALHADORES DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!”

ePub Criptografado

Os Sonhadores de Utopia.

O Socialismo Idealista ou Utópico.

Surge Marx: o Socialismo sem Utopia.

Por que o Socialismo É Inevitável.

Marx e o Trabalho: a Mais-valia.

As Contradições do Sistema Capitalista.

“Se eu tivesse um milhão de dólares!” Quantas vezes já brincamos com essa deliciosa ideia. Ela nos ocorre cada vez que os jornais publicam retratos dos felizes ganhadores dos grandes prêmios da loteria. De forma semelhante, sempre houve quem passasse uma boa parte do seu tempo especulando sobre sociedades melhores do que aquelas em que viveram. Frequentemente, tais especulações não vão além do sonho; ocasionalmente, porém, os sonhadores realmente se entusiasmam, trabalham muito em suas ideias e concluem suas utopias – visões da sociedade ideal do futuro.

Na verdade, a tarefa não era difícil. Quase todas as pessoas de imaginação a poderiam ter executado. Bastava olhar à volta e saberíamos o que devemos evitar. Há pobres por toda parte – na Utopia elimina-se a pobreza; há desperdício na produção e distribuição de mercadorias – na Utopia formula-se um método de produção e distribuição 100% eficiente. Há injustiça por toda parte – na Utopia estabelecem-se tribunais honestos, presididos por juízes honestos (ou organizam-se as coisas de tal modo que tribunais e juízes sejam totalmente desnecessários). Há miséria, doença, infelicidade – na Utopia há saúde, riqueza e felicidade para todos.

 

Carregar mais


Detalhes do Produto

Livro Impresso
eBook
Capítulos

Formato
ePub
Criptografado
Sim
SKU
BPE0000270346
ISBN
9788521617785
Tamanho do arquivo
3,3 MB
Impressão
Desabilitada
Cópia
Desabilitada
Vocalização de texto
Não
Formato
ePub
Criptografado
Sim
Impressão
Desabilitada
Cópia
Desabilitada
Vocalização de texto
Não
SKU
Em metadados
ISBN
Em metadados
Tamanho do arquivo
Em metadados