Hannah Arendt e a Modernidade - Política, Economia e a Disputa por uma Fronteira

Autor(es): CORREIA, Adriano
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O livro inova, em relação às pesquisas anteriores de Adriano Correia, como, aliás, não poderia deixar de ser, tendo em vista a inquietação constante e a produtividade de sua atuação no campo da filosofia. Conserva, no entanto, o essencial de seu concernimento em relação à obra arendtiana, chamando a atenção para sua atualidade e relevância no atual contexto de espetacularização da política e banalização da vida. Na era da extensão planetária da fabricação, perdemos em ritmo acelerado a capacidade de estar junto dos outros, o discurso transforma-se assustadoramente naquela tagarelice que Heidegger denominou de ‘Gerede’, nutrida pela propaganda, e que nada tem a ver com o que Habermas entende por racionalidade discursiva. Portanto, a filosofia de Arendt tornou-se, para nós, atmosfera vital, com sua exigência de compreender, sua ‘paciência do conceito’ e seu cuidado kantiano da vontade, indispensáveis para a sobrevivência do pensar e da condição verdadeiramente humana de ser-no-mundo e de ocupar o espaço público. Quando o animal laborans domina toda esfera da biopolítica, as pessoas são coagidas a ser apenas ‘pró’ ou ‘contra’ as outras, obedecendo, sem reflexão, as agendas que preformatam um arremedo de pensamento, capturadas na armadilha fatal do amigo/inimigo, imersas na violência cega dos meios e completamente insensíveis à dignidade da política.

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Capítulo I - Vícios privados, prejuízos públicos

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VÍCIOS PRIVADOS, PREJUÍZOS PÚBLICOS

A vida pública assume o aspecto enganoso de uma soma de interesses privados, como se estes interesses pudessem criar uma nova qualidade mediante a mera adição.1

Hannah Arendt

O

médico, satirista e pensador político Bernard Mandeville

(1670-1733) tornou-se célebre ao defender em A fábula das abelhas a tese de que vícios privados trazem benefícios públicos, como já sugere o subtítulo da obra, cujo título completo é A fábula das abelhas ou Vícios privados, benefício público. Segundo ele, quando cada indivíduo atua tendo em vista somente os próprios interesses, acaba contribuindo para o bem coletivo. Em vista de tal consideração, Mandeville rejeita qualquer interferência dos poderes públicos na vida social – antecipa-se à teoria do laissez-faire e aproximase das ideias de Adam Smith sobre a “mão invisível” do desenvolvimento econômico, que desemboca na tese do “egoísmo ético” da economia moderna, consoante a qual o vício

 

Capítulo II - O liberalismo e a prevalência do econômico: Arendt e Foucault

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O LIBERALISMO E A PREVALÊNCIA DO

ECONÔMICO: ARENDT E FOUCAULT

O que protege a liberdade é a divisão entre poder econômico e poder governamental, ou, na linguagem de Marx, o fato de que o Estado e sua constituição não são superestruturas.1

Hannah Arendt

E

m A condição humana (1958), quando Hannah Arendt se pergunta pelas razões que poderiam fornecer explicação para a vitória, nos primórdios da modernidade, do animal laborans, o trabalhador-consumidor, sobre o homo faber, o produtor-utilizador cujas características são definidoras de aspectos centrais do caráter da era moderna, ela se refere a um trecho da obra Uma investigação sobre os princípios da moral (An inquiry concerning the principles of morals

[1751]), de David Hume, o mesmo ao qual Michel Foucault recorre no curso Nascimento da biopolítica, em 1979, quando está a introduzir o conceito de homo oeconomicus. Não penso que isso seja coincidência, ainda que salte à vista o fato de que tanto Arendt quanto o editor do curso ministrado por Foucault, Michel Senellart, em um intervalo de

 

Capítulo III - Do uso ao consumo: alienação e perda do mundo

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DO USO AO CONSUMO: ALIENAÇÃO E

PERDA DO MUNDO

O fato é que uma sociedade de consumo não pode absolutamente saber como cuidar de um mundo e das coisas que pertencem de modo exclusivo ao espaço das aparências mundanas, visto que sua atitude central diante de todos os objetos, a atitude de consumo, condena à ruína tudo em que toca.1

Hannah Arendt

O círculo vicioso da economia moderna: consumimos para viver; produzimos para consumir; consumimos para produzir (desemprego); portanto, consumimos para consumir.2

Hannah Arendt

I

N

este capítulo pretendo explicitar alguns aspectos fundamentais da crítica de Hannah Arendt à sociedade moderna, principalmente no que se refere ao que na modernidade teria configurado como condições determinantes para a perda do mundo: a corrosão da esfera pública e a diluição da distinção entre o público e o privado com a ascensão do

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H. Arendt, A crise na cultura, p. 264.

 

Capítulo IV - Quem é o animal laborans?

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QUEM É O ANIMAL LABORANS?

Viver é um descuido prosseguido.1

João Guimarães Rosa

A

vitória do animal laborans é um tema central à reflexão arendtiana sobre a modernidade política. Para examiná-la realizarei uma análise das variações semânticas do emprego arendtiano do termo, cuja compreensão é central

à articulação operada por ela entre a condição humana, o surgimento da sociedade e a prevalência de uma mentalidade atrelada ao mero viver via trabalho e consumo. Indicarei que há ao menos três sentidos principais do emprego da expressão animal laborans na obra de Hannah Arendt: como dimensão fundamental da existência condicionada pela vida; como produto da sociedade atomizada; e como mentalidade e “modo de vida” extraídos das condições do mero viver. Penso que tal empresa é um passo fundamental à compreensão da relação entre economia e política na era moderna.

O termo animal laborans aparece pela primeira vez na obra publicada de Hannah Arendt no texto “Ideologia e terror” (1953), incorporado à segunda edição de As origens do totalitarismo em 1958, mesmo ano de publicação de A con1

 

Capítulo V - “A política ocidental é cooriginariamente biopolítica?” – Um percurso com Agamben

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“A POLÍTICA OCIDENTAL É COORIGINARIAMENTE BIOPOLÍTICA?” – UM

PERCURSO COM AGAMBEN

O homem, durante milênios, permaneceu o que era para

Aristóteles: um animal vivo e, além disso, capaz de existência política; o homem moderno é um animal em cuja política está em questão sua vida de ser vivo.1

Michel Foucault

N

o prefácio de sua obra Homo sacer I: o poder soberano e a vida nua, Giorgio Agamben evoca a companhia de dois vigorosos intérpretes dos tempos modernos: Michel Foucault e Hannah Arendt. Em Foucault ele julga encontrar a clara definição de uma biopolítica que inclui a vida biológica nos mecanismos e cálculos do poder estatal; em Arendt, na descrição fornecida por ela em A condição humana da vitória do tipo ou mentalidade que nomeia animal laborans, ele pôde identificar a associação entre primado da vida natural e decadência do espaço público na era moderna. Ainda em Arendt, ele encontra a inédita posição dos campos de concentração como instituição central da dominação totalitária. Não obstante, julga não encontrar em ambos

 

Capítulo VI - A esfera social: política, economia e justiça

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A ESFERA SOCIAL: POLÍTICA, ECONOMIA

E JUSTIÇA

Não era mais possível desviar os olhos da miséria e da infelicidade da massa da humanidade no século XVIII em Paris ou no século XIX em Londres, onde Marx e Engels ponderaram as lições da Revolução Francesa, assim como não o é hoje em alguns países europeus, a maior parte dos da América Latina, e em quase todos os da Ásia e da África.1

Hannah Arendt

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annah Arendt tornou-se amplamente conhecida na cena acadêmica americana, europeia e depois mundial a partir da publicação do seu livro As origens do totalitarismo, em

1951, mas foi com A condição humana, publicada em 1958, que ela passou a ser reconhecida mais tarde como uma das mais vigorosas pensadoras políticas de nosso tempo. O que vincula suas duas principais obras, dentre outros aspectos significativos, é a constatação de que o enfraquecimento, o desaparecimento ou a perda de especificidade do espaço público redunda em uma debilitação do âmbito político ante os constantes ataques que lhe são desferidos, movidos pelo interesse por usurpá-lo ou por provocar o seu esfacelamento. O conceito de espaço público é fundamental à compre1

 

Capítulo VII - O caso do conceito de poder – A Arendt de Habermas

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O CASO DO CONCEITO DE PODER

– A ARENDT DE HABERMAS

O poder corresponde à habilidade humana não apenas para agir, mas para agir em concerto.1

Hannah Arendt

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m 1976, em um texto pioneiro que se tornou clássico, concebido como uma laudatio a Hannah Arendt, falecida em 1975, Habermas se detém sobre o significado e a singularidade do conceito de poder na obra da autora. Nesse texto, intitulado “O conceito de poder em Hannah Arendt”, ao se apropriar do que nomeia poder comunicativo em Arendt,

Habermas se esforça por indicar o quanto tal conceito, ao implicar a recusa do modelo teleológico de ação, acaba por estabelecer um estreito vínculo entre poder e assentimento, fundado em um modelo comunicativo de ação política, no qual “os participantes orientam-se para o entendimento recíproco e não para o próprio sucesso”.2

A despeito de em grande medida Habermas se reconhecer amplamente na interpretação arendtiana do poder, que considera vigorosa e original, sua abordagem do conceito

 

Capítulo VIII - Revolução, participação e direitos

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REVOLUÇÃO, PARTICIPAÇÃO E DIREITOS

As cadeias da necessidade não precisam ser de ferro: podem ser feitas de seda.1

Hannah Arendt

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ogo no início do sexto capítulo de Sobre a revolução, intitulado “A tradição revolucionária e seu tesouro perdido”,

Arendt afirma que a liberdade política só pode significar a efetiva participação no governo. Para os familiarizados com a obra arendtiana, ainda que superficialmente, a associação entre liberdade e ação, assim como aquela entre poder e agir em conjunto chega a ser um truísmo. No que se segue pretendo reconstruir o pano de fundo dessa asserção, notadamente a partir do exame dos vínculos entre liberdade, engajamento e participação.

Como sói acontecer com as obras de Arendt, as dificuldades com Sobre a revolução não são negligenciáveis: a oposição que chega às raias da caricatura entre as revoluções americana e francesa; a questão social como causa da derrota da revolução e a compreensão da pobreza como uma questão administrativa; a interpretação de Marx, “o maior teórico das revoluções de todos os tempos”. Para ela o lugar

 

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