Homo Eroticus - As Comunhões Emocionais

Autor(es): MAFFESOLI, Michel
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Michel Maffesoli é professor de Sociologia na Sorbonne, diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano (Paris V) e diretor do Centro de Pesquisas sobre o Imaginário (M.S.H.). Autor é bastante conhecido no Brasil por uma série de obras já traduzidas em português, que representam um marco na sociolAlquimias festivas, culto do prazer, começo da vida, retorno poderoso dos afetos e das emoções: Eros triunfa e nos ensina acerca da profundeza que se esconde sob a superfície das coisas, no oco de nosso cotidiano e de sua própria banalidade.runfo da razão sensível sobre os velhos racionalismo científico, do querer-viver coletivo do indivíduo, de sua alegria dionisíaca sobre os monoteísmos dissecadores e morais áridas que esterilizam a ação.riunfo de impulsões e do imaginário da progressividade criada por nossas elites e da virtuosidade de nossos bons pensamentos.tento aos humores e aos entusiasmos secretos do corpo social, rodeados de vibrações do mundo que compõem nossa pós-modernidade, Michel Maffesoli assina uma obra essencial, resultado de trinta anos de reflexão, um livro-manifesto que canta a eterna juventude do mundo e anuncia uma ruptura epistemológica destinada a renovar em profundidade as condições do pensamento filosófico.ogia contemporânea, sobretudo pelo vigor e ousadia do pensamento

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Introdução

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Introdução

Magnus ab integro saeclorum nascitur ordo.1

Virgílio

Ninguém, entre os espíritos agudos deste tempo, ignora totalmente a importância dos afetos; mas alguns a desprezam; convém, pois, corrigir esse desconhecimento. Mas, é preciso lembrar, é somente sabendo manter a distância que se pode ficar perto do que é; da vida no que ela tem de concreto e de experimental. Ser capaz de dar conta do “real”: o poiei dos gregos que exprime a “poesia” da existência. Um

“real” que não tem muito a ver com esse famoso “princípio de realidade” (econômico, social, político) de que nos cansam de repetir, e que é somente a realização desse modus operandi próprio à modernidade: reduzir a totalidade do ser

às suas mais simples expressões. Em uma fórmula sintética, Auguste Comte deu a chave disso: reductio ad unum.

Ora, pouco a pouco se dissipam as quimeras estranhas

à experiência, essa vida empírica que, ao longo dos séculos, se erigiu a partir do bom senso e da correta razão reunidos.

 

Capítulo 1 – Eros Filósofo

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Capítulo

1

Eros Filósofo

Celui dont les pensers, comme des alouettes,

Vers les cieux le matin prennent un livre essor,

Qui plane sur la vie, et comprend sans effort

Le langage des fleurs et des choses muettes!1

Charles Baudelaire, Élévation

DA REALIDADE AO REAL

Voltemos com serenidade aos caminhos do pensamento que aprofunda a compreensão da força das coisas.

Lembrando uma regra de ouro que estabelece uma relação estreita entre o esotérico e o exotérico. Não pode haver exteriorização a não ser que os fundamentos sejam sólidos. O que torna público: publicidade, jornalista, perito, vulgarizador, deve, para fazer isso, ter muito a refletir. Isso é sabedoria constante em todas as tradições culturais.

1

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“Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz/De manhã rumo aos céus liberto se distende,/Que paira sobre a vida e sem esforço entende/A linguagem das flores e das coisas sem voz.” Elevação.

 

Capítulo 2 – Fundações

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Capítulo

2

Fundações

Retremper le Gai-Savoir nouveau dans le vieux fond du peuple.1

Frédéric Mistral, Mes Origines, cap. XVIII, 1

ANC(IEN)-ÊTRE (ANTIGO-SER)/ANCÊTRES

(ANCESTRAIS)

A cada mudança de época corresponde uma mutação semântica. É por isso que é preciso encontrar as palavras, senão absolutamente exatas, pelo menos o menos possível falsas. Porque, assim como lembra o poeta: “As palavras que vão surgir sabem de nós o que nós ignoramos delas.”2

Essa notação de René Char não se pode persegui-la, destacando que é aprofundando as palavras, aprofundando com as palavras que se pode aceder a essas palavras fundadoras de todo viver-junto?

1

2

Imergir o Alegre Saber novo na velha essência do povo.

R. Char, Ma feuille vineuse. In: Chants de la Balandrane. Pléiade,

1983. p. 534.

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v Homo Eroticus v Michel Maffesoli

Palavras de antiga memória que se enraízam profundamente na experiência humana. Palavras das quais convém lembrar o sentido esotérico, quando tende a prevalecer a tagarelice exotérica. O caminho de pensamento consiste, justamente, isto é, com justeza, em ajudar a emergência dessas palavras que vêm da vida, da experiência vivida. Dizê-las o mais belamente possível.

 

Capítulo 3 – “Estar-Com”

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Capítulo

3

“Estar-Com”

Il y a beaucoup d’étoiles qui attendent de toi que tu les remarques.

Há muitas estrelas que esperam de ti que as observes.

R. M. Rilke, Les élegies de Duino

O “CHULEIO (SURJET)”1

É certo que o inaparente é muito frequentemente essencial; mesmo se por preguiça, preconceito, dogmatismo, tem-se alguma dificuldade em observá-lo. Daí a palavra do poeta: são essas “estrelas” que convém levar em conta. E isso, a fim de que, além de um saber abstrato e um pouco desencarnado, se possa elaborar um conhecimento concreto da inteireza do estar-junto. Estamos aí no cerne de uma intuição intelectual de envergadura. Aquela que permite uma visão do interior. A que fornece um relacionamento do que é

1

N.R.: Aqui o autor faz um jogo de palavras entre surjet, um tipo de ponto de costura que corresponde em português a “chuleio”, e sujet, “sujeito” em francês e sur, “sobre”.

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Capítulo 4 – A Lei dos Irmãos

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Capítulo

4

A Lei dos Irmãos

Quam jucundum habitare fratres in unum.

Como é agradável viverem os irmãos em unidade.

Salmo 133 (132) 1

A RELAÇÃO DE PERTENÇA

Enquanto a experiência da vida quotidiana está aí, da forma mais conclusiva, é curioso constatar a recusa em considerar que se “conhecer [con-naître]” é antes de tudo, e em seu sentido estrito, nascer-com [naître-avec]. Se existe uma lei universal que rege o gênero humano, é que não se é aquele que se vê no espelho, mas, sim, aquele que se reconhece no olhar do Outro. É a alteridade que me faz existir. Trata-se aí de uma dessas banalidades que se teria algum escrúpulo em lembrar, se o conformismo lógico, a opinião intelectual, a correctness ambiente não nos forçassem a fazê-lo.

Lugar comum, portanto, com raízes profundas, que encontra uma inegável revivescência em nossos dias. O “primitivo” é sempre instrutivo quando se quer concordar, em profundidade, com o que é. É por isso que, além da plana, e bem usitada, bem usada “fraternidade”, convém voltar a

 

Capítulo 5 – Diversidade, Diferença, Disparidade

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Capítulo

5

Diversidade, Diferença,

Disparidade

Zwei Seelen wohnen, Ach! in meiner Brust.

Duas almas existem, ai! no meu peito.

Goethe, Premier Faust, v. 1.112

SEMELHANÇA E SINGULARIDADE

A coincidência dos opostos, eis uma singular expressão do relativismo: aquele que relativiza a Verdade única, aquele que coloca em relação as pequenas verdades aproximativas.

Não o Universal, mas um “multiverso”, o Um múltiplo reconhecido em inúmeras sabedorias, e que o sentido comum aceita como fundamento de toda vida social em que o “claro-obscuro”, misto de felicidades e de desgraças, é o destino comum de nossa humana natureza.

Em termos mais eruditos, isso se chama “contraditorial”: lógica do terceiro dado. A e – A sendo, a partir de então, intercambiáveis. Físicos como Stéphane Lupasco, antropólogos como Gilbert Durand, demonstraram bem o valor heurístico de tal princípio de participação, desse processo

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Capítulo 6 – O Ideal Comunitário

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Capítulo

6

O Ideal Comunitário

L’ordre moral a ses lois comme la physique, et la recherche de ces lois est tout à fait digne d’occuper les méditations du véritable philosophe.

A ordem moral tem suas leis como a física, e a pesquisa dessas leis é totalmente digna de ocupar as meditações do verdadeiro filósofo.

Joseph de Maistre

A ALMA COLETIVA

Será necessário contentar-se, de uma maneira preguiçosa, em falar a cada instante de “comunitarismo” e de seus supostos perigos? Será necessário, também, com caras de desagrado, denunciar o retorno do “populismo”, simplesmente porque esse povo inconveniente não obedece mais

às injunções dos que sabem, melhor que ele, o que ele deve ser? Isso tudo é bem infantil. Um pensamento digno desse nome tem que abordar, com serenidade, fenômenos que podem nos magoar, mas que estão aí, bem aí, e que não se pode mais contentar em negar ou estigmatizar. Como dizia

Michel Foucault, que, ele próprio, aplicou essa máxima, é

 

Capítulo 7 – Homo Festivus

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Capítulo

7

Homo Festivus

“Vous croyez à la vie éternelle dans l’autre monde?

– Non, mais à la vie éternelle dans celui-ci.

Il y a des moments où le temps s’árrête tout à coup pour faire place à l’éternité.”

Você acredita na vida eterna no outro mundo?

− Não, mas na vida eterna neste.

Há momentos em que o tempo para de repente para dar lugar à eternidade.

Dostoievski, Les Frères Karamazov

O “DEMÔNICO”

Os impulsos da vida são irreprimíveis, e há momentos em que eles favorecem tudo o que eleva o indivíduo acima dele mesmo. Mas é sempre a longo prazo, e sob nomes diversos, que tais impulsos se realizam. Pode-se, no entanto, ver uma gradação, por assim dizer, idêntica em todas as idades do mundo, nas mutações que esses impulsos propulsam.

É, inicialmente, uma espécie de fermentação. Agitação cultural que se deve compreender lato sensu. Os costumes evoluem, os modos de vida se transformam; e tudo isso

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Capítulo 8 – Ordo Amoris

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Capítulo

8

Ordo Amoris

Non intratur in veritatem, nisi per caritatem.

Não se entra na verdade, a não ser pela caridade.

Santo Agostinho

UM “SER AMOROSO” ILIMITADO

A palavra caritas, via real da verdade para Santo Agostinho, enfraqueceu-se. A não ser pelo fato de encontrar nas numerosas manifestações caritativas um vigor renovado. O de um elo social em que o amor tem seu lugar. Não se trata, é claro, de um amor que se pode reduzir à esfera privada. Nem de um amor que designa o sentimento experimentado por duas pessoas uma pela outra. O amor em questão, em seu sentido pleno, é um termo cômodo para designar uma ambiência geral na qual se elabora e se desenvolve uma maneira de estar-junto.

Maneira não necessariamente nova, mas que foi oculta, ou, no mínimo, marginalizada, será preciso ver por que, ao longo de toda a modernidade. E a ligação agostiniana entre verdade e caritas é oportuna, se concordarmos, na ótica fenomenológica, em reconhecer que “o próprio da verdade é

 

Capítulo 9 – A Harmonia Redescoberta

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Capítulo

9

A Harmonia Redescoberta

On dirait que l’ancien monde finit et que le nouveau commence.

Dir-se-ia que o mundo antigo acaba e que o novo começa.

Chateaubriand

O INSTINTO ESTÉTICO

Em suas Souvenirs d’un Européen, Stefan Zwig observa como logo antes das tempestades da guerra se manifestava uma particular e forte intensidade: “cada indivíduo experimentava um crescimento de seu eu, ele era incorporado a uma massa, ele era o povo”.1 É essa incorporação em tal tribo, em tal comunidade que, em nossos dias, favorece um inegável aumento que se exprime em um familiar “eu curto”.

Elevação de um “eu” em “nós” que é, incontestavelmente, o coração pulsante de todas as manifestações do emocional pós-moderno.

1

Cit. In: C. Sauvat, Stefan Zweig. Paris: Gallimard, 2006. p. 112.

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Os fenômenos caritativos, as “indignações” políticas, as agregações festivas, as agitações esportivas, as peregrinações religiosas, eis quantas manifestações de uma intensidade societal que prefiguram a chegada de um novo paradigma ou, antes, que ilustram o que já está aí: uma vigorosa cultura do sentimento que se dedica a viver no presente.

 

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